Dengue avança na zona rural de Londrina
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quarta-feira, 24 de abril de 2019
Simoni Saris - Grupo Folha 

Entre os 2.479 habitantes do distrito de Paiquerê, é difícil encontrar alguém que não tenha tido dengue ou que não tenha um parente que já foi infectado pela doença neste ano. O mais recente boletim da secretaria de Saúde de Londrina, divulgado na semana passada, aponta seis casos de dengue confirmados no distrito desde o dia 30 de dezembro de 2018, mas a população afirma que há mais de uma centena de pessoas contaminadas. Segundo o município, a situação é preocupante também em outros distritos da zona sul de Londrina.
Na UBS (Unidade Básica de Saúde) de Paiquerê, todos os dias chegam pacientes com os sintomas da dengue. Dores no corpo, vômito e febre são alguns dos principais indícios da doença. A coordenadora da unidade, Flávia Helena Possette Boiczuk, confirma que o distrito nunca passou por uma situação como a atual em relação a dengue, com tantos casos suspeitos. “Depois do feriado do Carnaval começaram a aparecer muitas pessoas com os sintomas da dengue, mas a confirmação pelo Lacen (Laboratório Central do Estado do Paraná) está demorando mais de 40 dias. Os resultados dos exames que eu tenho são do mês de fevereiro. Os de março ainda não tive o resultado”, disse a coordenadora, explicando o motivo da discrepância entre os dados da Sesa e a realidade do distrito. Boiczuk ressalta, porém, que o tratamento prescrito aos pacientes com suspeita de dengue independe da confirmação da doença.
Há cerca de 15 dias, a diarista Ednéia Pereira de Araujo Santos desenvolveu os sintomas clássicos da dengue. Com febre e dores pelo corpo, ela foi encaminhada a uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) em Londrina e disse que o teste rápido feito no local acusou a contaminação pelo vírus da doença. Dois dias depois, o marido apresentou os mesmos sintomas e, na sequência, o filho. “Meu filho e meu marido não tiveram a confirmação da doença, mas eles sentiram tudo o que eu senti", comentou Santos. “Meu quintal é limpo, todo calçado e eu ainda estou sempre monitorando para ver se não tem alguma coisa que possa acumular água, mas se em volta de mim as pessoas não cuidarem também, não adianta”, disse ela, reforçando o que os profissionais de saúde não cansam de repetir, mas que parte da população parece não conseguir assimilar.
Há alguns dias, a aposentada Onilda Reis teve dores de cabeça, diarreia e vômito e, no final da semana passada, notou a presença de manchas vermelhas na pele. O filho e dois netos de Reis tiveram dengue e, apesar de ainda não haver a confirmação oficial sobre o seu caso, para ela o conjunto de sintomas não deixa dúvidas sobre o diagnóstico. “É dengue”, garantiu.
“Em Paiquerê está uma epidemia da doença. Eu peguei dengue faz uns dez dias. Achei que era gripe, começou com dores no corpo e eu não tinha coragem para fazer nada. Mas aí eu vi que era dengue”, disse o operador de máquinas Edvaldo Ribeiro Caladio. “Acho que a gente chegou nessa situação um pouco por causa da chuva, mas um pouco é por descuido. Ali perto do cemitério é um depósito de lixo.”
Não é só Caladio que vê o terreno próximo ao cemitério como uma área de risco para a proliferação do mosquito Aedes aegypti. Toda a população do distrito alerta sobre o perigo de ter um depósito de lixo a céu aberto tão perto de residências. No local há uma grande quantidade de material que favorece o acúmulo de água e serve de criadouro do mosquito transmissor da dengue.
Mutirão de limpeza
A área foi alvo de um mutirão de limpeza promovido pela própria comunidade. Marina Muraoka tomou a frente na mobilização da população e conseguiu reunir 14 voluntários. Na ação, foram recolhidos 16 sacos de lixo que depois foram levados por uma equipe da CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização). “O problema não é só ali, mas em volta de todo o distrito. A falta de consciência das pessoas é o pior porque catamos o lixo em um dia e no outro o lixo está lá de novo. O serviço de coleta é feito no distrito três vezes por semana e a coleta seletiva, uma vez por semana. Não há necessidade de jogar o lixo em outro local”, disse Muraoka.
Para a diarista Edinéia Santos, o descuido da população com o lixo agravou o quadro da dengue em Paiquerê, mas ela também acredita que muitos moradores foram infectados na zona urbana. “Tem muita gente daqui que trabalha em Londrina, onde tem mais dengue. Essas pessoas podem ter ajudado a disseminar a doença no distrito.”
“São vários fatores. Tem o acúmulo de criadouros do mosquito, acúmulo de lixo, mas muitos trabalham na cidade, na zona sul (onde há maior índice de infestação do mosquito e o maior número de casos). Tem pessoas que vão todos os dias para a cidade, podem ter se infectado lá e, com os criadouros em Paiquerê, os mosquitos foram se reproduzindo e aí aumentaram os casos da doença”, afirmou a coordenadora da UBS do distrito.

Em Guaravera, Irerê e Lerroville
doença também preocupa
Segundo a diretora de Vigilância em Saúde de Londrina, Sônia Fernandes, foi aplicado fumacê no distrito de Paiquerê em três ciclos e 100% dos imóveis foram vistoriados, além de uma grande ação envolvendo a comunidade, promovida no início do mês. O distrito não tem agentes de endemia fixos, mas há uma equipe que se desloca até Paiquerê sempre que necessário.
Embora o boletim da Secretaria Municipal de Saúde contabilize apenas três casos confirmados de dengue em Irerê, três em Lerroville e nenhum em Guaravera, Fernandes disse que esses distritos também são uma preocupação para a Secretaria Municipal de Saúde. “Já estamos realizando várias ações lá (em Guaravera), assim como em Irerê. Estamos reproduzindo as ações já realizadas em Paiquerê, com a diferença de que o inseticida está sendo aplicado por bomba costal”, explicou Fernandes.
Desde janeiro, foram registrados em Londrina 713 casos de dengue e mais de 3.600 estão sob análise. Do total de confirmações, 321 estão na área de abrangência da UBS do Jardim Itapoã (zona sul).
A dengue também foi apontada como a causa do óbito de quatro pessoas no município e uma quinta morte por suspeita de dengue é investigada pela Secretaria Municipal de Saúde, a de um morador de Paiquerê de 74 anos de idade, ocorrida na primeira semana de abril. O idoso sofria de enfisema pulmonar, mas segundo os familiares, teve o quadro de saúde agravado após contrair dengue. “O enfisema estava controlado e a dengue agravou o problema. Se ele não tivesse sido contaminado pela dengue, não teria morrido agora”, disse um parente.
LACEN
Médica veterinária da Vigilância Ambiental da Sesa, Ivana Belmonte reconheceu que o tempo para confecção dos resultados dos dados pelo Lacen tem demorado por conta da demanda, entretanto negou que seja um longo período e que isso atrapalhe o trabalho de combate ao Aedes aegypti nas cidades. “O Lacen é um laboratório de referência e de vigilância, não de diagnóstico. A partir do momento que detecta a circulação da doença, o diagnóstico pode ser realizado por laboratórios das próprias prefeituras”, explicou. Ela ainda acrescentou que apesar disso, o Lacen disponibiliza exames laboratoriais para os município e que dá prioridade para checagem nos casos mais graves. “O exame tipo PCR sai dentro de uma, duas semanas, já a sorologia é feita após o sexto dia e é mais prolongada.” (Colaborou Pedro Marconi)


