Delícias perigosas
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quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Dezoito barracas. Lanches com todo tipo de recheio, salgados assados e fritos, pipoca, refrigerante, café. Tudo à mão, logo ali, em frente ao Terminal Urbano de Londrina, para quem quiser experimentar. É comum encontrar um passageiro matando a fome enquanto espera o ônibus. A média de refeições servidas em um dia de trabalho numa das barraquinhas da Rua Benjamim Constant, na Região Central, pode superar 300.
Marilda Alves Ferreira vende salgados e bebidas em frente ao Terminal há três anos e segundo ela, o movimento cresce sempre no início do mês, na época do pagamento. ''Não faço idéia de quantas pessoas atendo por dia, principalmente as que estão dentro do Terminal'', declara.
Como vem de Cambé todos os dias, Marilda deixa boa parte das mercadorias, como refrigerantes e embalagens de condimentos, no próprio carrinho, que permanece estacionado em frente ao Terminal. Já os salgados são preparados em casa, pela cunhada da vendedora. ''Ela levanta de madrugada e frita tudo'', conta Marilda, que trabalha com o marido e uma ajudante das 4h30 às 18h30, diariamente.
''Usamos o banheiro da galeria e separamos um balde com água e sabão para lavar as mãos durante o dia'', diz a quituteira, que usa apenas avental e touca enquanto manipula os alimentos. ''Deveríamos usar luvas também, mas é difícil manusear comida e dinheiro com a luva, então pegamos os salgados com papel mesmo'', confessa.
Tão comum quanto os carrinhos de lanche e pipoca é a precariedade da infra-estrutura local. A maioria das barracas não conta com fonte de água corrente e enquanto preparam os alimentos, os vendedores manipulam notas de dinheiro sem utilizar luvas ou lavar as mãos.
Cubinhos de bacon, salsichas, hambúrgueres, ficam o dia todo sobre as chapas e a refrigeração das bebidas e dos alimentos é feita em caixas de isopor cheias de gelo. O muro que separa o Terminal da Rua Benjamin Constant tornou-se balcão para alguns ambulantes. É lá que eles arrumam as bisnagas de ketchup, mostarda e maionese.
Conforme a coordenadora de Alimentos e Zoonose da Vigilância, Graça Deliberador, o local é insalubre, por causa dos ônibus, da fumaça e da água parada nos bueiros. Pombas ciscando sobre as lonas dos carrinhos e alimentos expostos ao sol completam a cena. O único ponto onde os ambulantes podem lavar as mãos é uma torneira que fica entre as barracas e é utilizada por todos. A maioria dos vendedores não foi treinada em higiene de alimentos e apesar de usarem aventais e toucas, ninguém utiliza luvas.
Sábado pela manhã, Gislene Soares veio do Jardim Tókio, Zona Oeste, para o Centro, e antes de iniciar as compras parou para fazer uma boquinha. Escolheu um copo de café e um lanche de uma das barracas alocadas em frente ao Terminal e achou tudo ''muito gostoso''.
''Venho para o Centro sempre nos fins de semana e de vez em quando paro para comer um lanche ou um salgado aqui no Terminal. O preço é bom e o lugar é limpinho'', relata Gislene, que costuma prestar atenção na higiene das barracas. ''Facilita para quem está esperando o ônibus. Pode comer perto do ponto a um preço camarada'', completa.
Produtos de origem animal, como frango, salsicha, mortadela e bacon são os mais perigosos, afirma Graça. Ela explica que esses alimentos contém sangue e naturalmente apodrecem muito mais rápido. ''Eles não podem, em hipótese alguma, estar expostos ao tempo. Além disso, temos a maionese que é de altíssima perecibilidade. Se não tomar cuidado, dá surto mesmo.'' Ainda segundo a coordenadora, garapa e pipoca apresentam baixíssimo risco de contaminação, enquanto espetinhos são ''bem perigosos''.
Conforme Graça, alimento de origem animal deve ser mantido sob refrigeração e o carrinho tem que ter um lugar preparado para isso. Para ela, é melhor consumir a maionese industrializada do que a caseira. Se for caseira, tem que ser no sachê. ''E o consumidor deve ficar de olho também na higiene e limpeza do ambulante.''
Apesar do déficit de fiscais, toda licença para ambulante é feita após uma vistoria das condições sanitárias. No entanto, não há fiscalizações após a concessão da licença. ''Em boas condições, o ideal seria passar pelo menos de duas a três vezes por ano naquele ambulante.''


