Delegado vai mandar inquérito para Justiça sem ouvir cacique
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quarta-feira, 03 de dezembro de 1997
Alexandre Sanches Londrina 
Mário CésarTestemunhos favoráveisO delegado Ismael Machado: Não há motivo para o cacique continuar se escondendo da PolíciaO delegado de polícia Ismael Lucas Machado, de São Jerônimo da Serra (95 km ao sul de Londrina) deve encaminhar hoje para a Justiça o inquérito que apura o assassinato do ex-posseiro Adenilson da Silva Cruz, conhecido como Nego Saruê, 25 anos, morto pelo cacique da reserva indígena Barão de Antonina, Reginaldo Sales Batarse, 27 anos. O crime aconteceu no dia 16, mas até ontem à tarde nem a Funai, nem a assessoria jurídica do órgão haviam se pronunciado sobre a possibilidade de apresentar o cacique para depor.
No dia 16, Batarse e o índio João Teixeira foram até o distrito de São João do Pinhal, que faz divisa com a reserva. Na entrada do lugarejo, o pneu do carro furou e Batarse foi trocar. A versão apresentada pela Funai diz que o cacique foi pego pelas costas por Cruz e pelo cunhado dele, João Rodrigues. Ao tentar se salvar, Batarse deu três tiros no ex-posseiro, matando-o no local.
A versão da família de Cruz é contraditória. Ela diz que Cruz foi chamado para se encontrar com os índios e ao chegar, foi recebido a balas. João Rodrigues não foi morto porque se escondeu atrás de um poste. Cruz era o líder dos ex-posseiros que desde janeiro de 96 havia ocupado seis vezes a Gleba do Cedro, área que consideram fora das demarcações da reserva.
Para o delegado Ismael Lucas Machado, as testemunhas-chave já foram ouvidas. Os testemunhos são favoráveis ao cacique e ao companheiro dele. Não há motivo para continuar se escondendo. Se ele demorar para se apresentar, devo representar com pedido de prisão preventiva deles, comentou.
Machado acha um absurdo a Funai e a assessoria jurídica não tomar qualquer providência sobre o crime. Na semana passada, durante uma reunião entre o Ministério Público, políticos e índios, o advogado da Funai para a região Sul Derli Fiuza esteve presente, mas não comentou sobre o assunto com o delegado.
Não posso ficar passível diante desta situação. Mesmo tendo pouco mais de 10 dias para concluir o inquérito, a Funai não pode ficar escondendo o cacique e a outra pessoa que nem sei se é índio. Uma pessoa morreu, independente de ser marginal ou não, desabafou.
O administrador regional da Funai em Londrina, Joventino Domingos Aco, evitou comentar o assunto. Ele afirmou, no entanto, que a presidência do órgão em Brasília passou a responsabilidade do assunto para o advogado Fiuza. Ele também declarou que o advogado já entrou com recurso para verificar a competência para o caso. Por ser um índio que matou o ex-posseiro, e tutelado pela União, a Funai tenta passar a responsabilidade para a Justiça Federal.


