O delegado de Jataizinho (21 quilômetros a leste de Londrina), Artur Pereira de Toledo, 43 anos, conhecido por ‘‘Artur Bruxa’’, foi transferido da 10ª Subdivisão Policial de Londrina para a prisão de Apucarana. Artur Bruxa foi autuado aonteontem em flagrante por estelionato, porque teria roubado, junto com outros três comparsas, R$ 10,9 mil, aplicando o ‘‘golpe do chute’’ em Mauá da Serra (54 quilômetros ao sul de Apucarana). Ele foi transferido porque o crime aconteceu na jurisdição da 17ª Subdivisão Policial de Apucarana.
Artur Bruxa foi preso pela serviço reservado da Polícia Militar (P-2) e destituído de suas funções. Em seu lugar foi empossado o suplente Wiliam Roberto da Silva, conhecido por ‘‘Buda’’.
As vítimas - José Santos da Silva, Jeferson Aparecido Bergasso e Sebastiana do Carmo Soares - pertencem à mesma família e moram em Pirapozinho (SP). Os três reconheceram o delegado, que estaria junto com a quadrilha na hora do roubo. O golpe do chupe é conhecido porque a vítima é convencida pelos ladrões a fazer uma compra (geralmente por telefone) e é roubada quando ela se encontra com os ‘‘vendedores’’. O delegado alega que foi sequestrado pelos ladrões e levado até o local.
Artur Bruxa não era delegado de carreira. Foi nomeado para a função por políticos da região. Como ele, existem no Paraná mais 15 delegados nomeados também por forças políticas regionais. O acusado não recebia salário e fazia questão de dizer aos amigos que trabalhava gratuitamente para o Estado.
A prisão do delegado não surpreendeu a população de Jataizinho. ‘‘Ele é uma pessoa muito simpática e faladora, como também são todos os policiais civis daqui (Jataizinho). Só que tem uma coisa: o delegado não recebe salário e os outros policiais civis ganham pouco. É incrível tranquilidade econômica que eles vivem’’, comentou um morador, que preferiu não ser identificado.
Artur Bruxa é dono de uma farmácia e uma chácara. O delegado ‘‘calça curta’’ (autoridade policial que não tem formação e não fez concurso público) ocupava o cargo há mais de cinco meses e, surpreendentemente, não possuía uma ficha policial adequada à função. Antes de ser delegado, em 1980, ele já havia sido condenado por receptar objetos roubados na cidade de Mandaguari.
O presidente do Sindicato da Polícia Civil em Londrina, Ralf Green de Oliveira, se diz revoltado com a nomeação de policiais civil sem concurso. ‘‘É um modismo que envergonha a instituição policial. As autoridades estaduais deveriam dar um basta para acabar com este cabide de emprego com interferência política’’, afirmou. Sua maior indignação foi a nomeação de outro delegado ‘‘calça curta’’ para o lugar de Artur Bruxa.
A família vítima do golpe do chute contou que foi convidada a ir até uma fazenda em Mauá da Serra para comprar cabeças de gados, por preço bem abaixo da tabela. Na fazenda, o dinheiro que traziam foi roubado pelos quadrilheiros. Artur Bruxa foi reconhecido pelas vítimas como um dos que estavam no local e participaram do roubo. Eles disseram que o ex-policial fez ameaças armado.
Em depoimento ao delegado operacional da 10ª Subdivisão Policial, Valdir Abrahão, as vítimas relataram que um dos quadrilheiros ‘‘avançou’’ no dinheiro quando ele foi mostrado, sob a alegação que iria pagar o ICM da transação. Ele teria saído correndo em seguida. Artur Bruxa foi preso quando estava no automóvel Corsa da esposa - o veículo estava com placas de uma caminhão roubado em Palmeiras (RS) e recuperado no Piauí.
Um policial, que preferiu não se identificar, informa que a família teria sido induzida a dar outra versão para livrar o ex-policial do crime de roubo, bem mais grave do que estelionato.
Em junho do ano passado, o agricultor russo Kusma Onchinnikov e o filho Sava, de 2 anos, foram assassinados em consequência do golpe do chute. O russo veio a Londrina comprar o caminhão do policial civil Jovacir Pereira Junior. Quando fechava o negóciol, sofreu um assalto e foi roubado em R$ 15 mil. Pai e filho foram mortos no interior de um carro quando eram sequestrados pelos ladrões.
Em relação ao golpe aplicado por Artur Bruxa, Abrahão disse que se tivesse uma foto em mãos teria certeza de que outro policial seria reconhecido como comparsa do ex-delegado. O delegado operacional afirmou que está apurando diversos roubos de cargas em Jataizinho, Cornélio Procópio, Cambé, Ibiporã. Ele também apura a morte de um caminhoneiro ocorrida no ano passado em Tamarana. O delegado Abrahão comenta: ‘‘Este crimes poderão estar ligados à quadrilha do golpe do chute. E o mentor da quadrilha pode ser o Artur Bruxa’’.

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