Delegado escreve livro sobre o conto-do-vigário
PUBLICAÇÃO
domingo, 11 de novembro de 2001
Agência Estado 
Todo dia, a história se repete. Não se passam 24 horas sem que a polícia registre pelo menos um caso de conto-do-vigário, os conhecidos golpes. Todos os outros que provavelmente acontecem são mantidos em sigilo pelas próprias vítimas, constrangidas em admitir na delegacia como elas, pessoas tão espertas, foram enroladas por algum vigarista.
Foi pensando em abrir os olhos de quem pode estar na mira de malandros que o delegado Manoel Camassa, titular da recém-reativada Delegacia de Estelionato, do Departamento de Investigações Sobre o Crime Organizado (Deic), de São Paulo, resolveu escrever um livro sobre o tema e enumerar os golpes mais aplicados na cidade.
Com a ajuda do advogado Guilherme Dias, o policial está juntando todos os casos de trapaça que se enquadrem no artigo 171 do Código Penal, crime que pode custar ao vigarista uma pena entre 1 e 5 anos de prisão. Além do tradicional golpe do bilhete premiado, o delegado Manoel Camassa aponta vários outros entre os mais comuns, como os golpes da
cascata, do recadastramento, do fiscal do imposto de renda, do ouro falso e da viagem. Abaixo, dois exemplos que como agem os estelionatários em dois casos.
Golpe da cascata
A vítima vê alguém pegando uma folha de cheque do chão. Uma golpista pergunta: ''É seu?'' Ela diz que não. Então, aparece o parceiro da estelionatária, demonstrando alívio: ''Que maravilha! Vocês acharam meu cheque. Eu já estava desesperado. É o dinheiro do pagamento dos meus funcionários.'' Para ''compensar'' a vítima e a companheira, entrega um cartão de sua loja de calçados e escreve atrás: ''Vale R$ 50 e um par de sapatos''. Recomenda que sigam até a loja aponta a mais próxima e recebam o prêmio. Mas adverte: a segurança não permite a entrada de clientes com bolsas. A parceira do trapaceiro entrega sua bolsa à vítima e pede que ela a espere. Depois, reaparece com os R$ 50 e um par de sandálias. E sugere: ''Agora é a sua vez. Pode deixar a bolsa comigo.''
Recadastramento
O malandro chega muito bem vestido na casa da vítima, geralmente uma pessoa idosa, se apresenta como funcionário do banco em que ela tem conta, mostra a credencial e diz que precisa fazer o recadastramento dos clientes. Pede seu cartão magnético (que é trocado sem que a vítima perceba), e o coloca em um envelope, imediatamente lacrado. O envelope é entregue à vítima, com a recomendação de que deve ser devolvido ao banco. Em seguida, tira um lap top da maleta, pede que a pessoa digite a senha e vai embora, tranquilo, com tudo o que precisa para retirar o dinheiro da vítima.


