Delegado acusado de tortura se afasta
James Alberti e
Dimitri do Valle
De Curitiba
Um dia depois de ter sido denunciado pela Folha por prática de tortura, o delegado de Campo Largo, Marcos Antônio de Oliveira, solicitou seu afastamento do cargo na Divisão Metropolitana da Polícia Civil. O chefe da divisão, delegado João Manoel Siqueira Dias, acatou o pedido. Dias justificou que o delegado acusado quis preservar a isenção da investigação que está sendo feita pela Corregedoria da Polícia Civil.
Foi uma forma que o próprio delegado encontrou para não surgirem comentários de que ele poderia exercer pressões sobre os presos e funcionários da delegacia que serão ouvidos no caso, disse João Dias. Para o lugar de Oliveira em Campo Largo, Dias nomeou a delegada de Araucária, Mônica Meister. Ela ficará interinamente na função até a semana que vem, quando o nome do substituto será definido.
A Folha obteve, anteontem à noite, as duas fitas que teriam sido gravadas pela investigadora Raquel Bandeira, 45 anos, durante sessões de tortuta de um acusado na Delegacia de Campo Largo, que fica na Região Metropolitana de Curitiba. Raquel acusa o delegado Marcos Antônio de Oliveira, que está na cidade há dois meses, de comandar a tortura durante um interrogatório. Das gravações ouve-se pancadas, gritos de dor, ameaças, choros, xingamentos, gargalhadas e pedidos de clemência. As duas fitas possuem juntas 11 minutos de tortura. As sessões no entanto duraram muito mais. Cada vez que a porta da sala na qual acontecia o interrogatório era aberta, a investigadora viasse obrigada a desligar e esconder o gravador.
Como as gravações foram feitas de uma sala ao lado, são poucas as frases que podem ser ouvidas nitidamente. Da primeira fita, que tem cerca de dois minutos, o que mais aparece são os pedidos de clemência da vítima e gargalhadas de um dos torturadores. Repetidamente, a vítima se refere a um doutor. À Folha, a vítima, que não está sendo identificada por questões de segurança, disse que a pessoa chamada de doutor era o delegado de Campo Largo. Entre as frases nítidas estão: Eu não sei nada, doutor e Não fui eu não, doutor. Não sou eu, não.
A segunda fita é a mais longa. Tem pouco mais de nove minutos. Embora na maior parte das gravações seja difícil compreender o que está sendo dito, nesta consegue-se identificar, pelo menos, quatro vozes. A da vítima e de três torturadores. Destaca-se nessa gravação, os xingamentos dos agressores. Quem estava no roubo, filho da puta, pergunta um deles. Um outro emenda: Quem participou do roubo?. E a voz anterior repete novamente a frase: Quem estava no roubo, filho da puta. Da vítima, só se ouvem gritos de dor. Ai, ai, pare doutor, diz ele. Os gritos e gemidos são, aliás, uma constante durante todas as gravações.
A frase mais nítida é dita no final da segunda fita, quando o interrogatório teria supostamente terminado. A voz diz: O bicho vai pegar, vai pegar diferente. Conforme a padeira Ana Paula Delamessa Barba, 27 anos, irmã de criação de Raquel, a afirmação é do investigador Moacir Santos Silva, que também participaria das sessões de tortura. Segundo Ana Paula, a frase é dita quanto a vítima está sendo levada para a Delegacia de Furtos e Roubos, em Curitiba, onde a tortura teria continuado, segundo declarou a vítima na Corregedoria da Polícia Civil e na Procuradoria de Investigações Criminais.





