Mário CésarBebida e violênciaA delegada Maria Joseléia Pigozzi: ‘Se não houvesse o álcool, talvez não precisaria existir a Delegacia da Mulher’

A Delegacia da Mulher completa uma década em Londrina com um trabalho que vai além da prevenção e da elucidação de crimes: as investigadoras e a própria delegada servem muitas vezes como conselheiras de mulheres vítimas e casais com relações conflituosas. Isso porque a Delegacia não dispõe de psicólogos nem assistentes sociais.
No balanço dos dez primeiros anos da Delegacia, completados em agosto do ano passado, foram registradas 16.967 ocorrências e atendidas 34 mil mulheres. Desses atendimentos, 55% das mulheres sofreram agressão física, 35% foram ameaçadas e as 10% restantes sofreram estupro, sedução e atentado violento ao pudor. As mulheres que mais procuram a Delegacia da Mulher são de classe média baixa.
A maior parte das agressões físicas é cometida pelos maridos ou companheiros das mulheres, segundo a delegada Maria Joseléia Pigozzi. Em 90% dos casos de violência, o homem está bêbado. ‘‘Muitas mulheres, casadas por 20, 30 anos, dizem que o marido é bom desde que não beba. Se não houvesse o álcool, talvez não precisaria existir a Delegacia da Mulher.’’ De acordo com Joseléia, geralmente o casal recebe aconselhamento, e o homem, se for alcoólatra, é orientado a procurar um serviço de recuperação. ‘‘Infelizmente não há como obrigar ninguém a se tratar.’’
Na sua opinião, a mulher é vítima fácil do homem por ser mais frágil fisicamente. ‘‘Vale a lei do mais forte. O homem tem uma formação mais agressiva. Quer resolver tudo na força. A mulher não. Ela geralmente fica sem ação. Chora na frente do agressor em vez de fugir dele’’, diz. Para Joseléia, esse comportamento faz parte da educação diferenciada dos homens e mulheres. ‘‘Os pais exaltam a fragilidade da filha e a força do filho, desde quando são bebês. A educação tem que ser reformulada. Às vezes a mulher não tem nem o instinto de preservação. Ela não consegue reagir à agressão’’, avalia.
Quando a mulher é ameaçada de morte pelo ex-marido ou ex-companheiro, Joseléia afirma que na maioria das vezes a ameaça não se concretiza. Mesmo assim, a Delegacia não costuma ‘‘brincar’’ com esses casos. O homem que faz a ameaça é intimado a conversar com a delegada.
Joseléia explica que o trabalho da polícia ficou mais fácil com a lei 9.099, que caracteriza a ameaça. ‘‘A mulher geralmente sabe quando o homem está falando sério ou quando é da boca pra fora’’. Quando a ameaça é mais grave, a delegada faz o chamado termo circunstanciado (relato sucinto do que aconteceu), que é encaminhado ao juiz. ‘‘O juiz chama para uma audiência e o homem fica mais pressionado a não cumprir o que disse à mulher’’. Essa intimação ocorre imediatamente após a reclamação da mulher ou então demora o suficiente para a localização do homem. Se quem faz a ameaça não é localizado, há situações em que a polícia esconde a mulher, para que ela não corra risco.
Outra queixa bastante frequente das mulheres ocorre quando elas são vítimas de injúrias, calúnias e difamações - a popular fofoca que ocorre na vizinhança. ‘‘Na maioria das vezes, a vítima não quer abertura de inquérito. Quer apenas que a pessoa que fez o comentário maldoso se retrate e pare com a falação. Ou então quer que a pessoa seja chamada à Delegacia para provar o que anda dizendo’’, conta Joseléia. Segundo ela, geralmente a fofoqueira em questão é outra mulher.

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