Dekasseguis acusam imobiliária de golpe
Um casal de dekasseguis paranaenses está acusando a empresa Emi Empreendimentos, que atua há vários anos no mercado imobiliário de Londrina, de aplicar nos dois um golpe de mais de US$ 40 mil. Maria Ramos, 28 anos, e o namorado, Claudemir Hideki Nagao, 24, afirmam que compraram um sítio em Tamarana, no ano passado, através da imobiliária londrinense. Pagaram cerca de R$ 20 mil (metade dólar, metade Real) à vista e mais US$ 22 mil em prestações, através de depósitos bancários feitos diretamente na conta de Maria Emi de Oliveira, sócia-proprietária da imobiliária. O casal diz que quitou a dívida no começo deste ano mas não recebeu nem a propriedade e muito menos o dinheiro de volta.
Há cerca de 15 dias, o casal abandonou os empregos que tinham na cidade de Toyota-Shi, província de Achi-Ken, e voltou ao Brasil para tentar resolver o problema. ‘‘Tudo o que nós conseguimos juntar em mais de cinco anos de trabalho pesado no Japão foi aplicado na compra do imóvel’’, diz Claudemir Nagao.
Segundo Maria Ramos, que é da cidade de Ribeirão do Pinhal (57 quilômetros a oeste de Jacarezinho), o casal resolveu comprar o imóvel em agosto do ano passado, depois que viu anúncios da Emi Empreendimentos em jornais da comunidade brasileira que circulam no Japão. Claudemir e Maria procuraram o escritório que a imobiliária mantinha no Japão, também na cidade de Toyota-Shi, onde trabalhava um ‘‘corretor’’ brasileiro chamado L F P - além de outros dois japoneses.
No escritório, o casal assistiu a um vídeo que mostrava a propriedade de cinco alqueires, em Tamarana, e que estava sendo oferecida por R$ 48 mil. Ficaram interessados no negócio. ‘‘Ele (o corretor) então perguntou se a gente tinha algum parente no Brasil que pudesse conhecer o sítio’’, recorda Claudemir. A família dele é de Mariluz, 35 quilômetros a sudeste de Umuarama, distante cerca de 300 quilômetros de Londrina. O dekassegui contatou, então, o pai, José Nagao, para ver a propriedade.
Em setembro do ano passado, José Nagao teria ido com Maria Emi conhecer o sítio. Gostou da propriedade e, alguns dias depois, o filho resolveu fechar o negócio. Nagao deu um cheque de entrada, no valor de R$ 10 mil, com prazo de 15 dias para ser descontado, segundo relato dos dekasseguis.
Dois dias depois, no entanto, Maria Emi teria pedido para que ele trocasse o cheque por dinheiro, condição que acabou sendo aceita.‘‘ Ao mesmo tempo, depositamos, do Japão, mais US$ 9.916,00 na conta da corretora no Banco do Brasil, totalizando cerca de R$ 20 mil a vista’’, revelaram. O restante seria pago em prestações, até completar R$ 48 mil. O pai de Claudemir e o casal teriam confiado na corretora, que não fez contrato de compra e venda, não deu recibo de pagamento e não mostrou a escritura do imóvel. Apenas prometeu que enviaria os documentos posteriormente.
Dois meses após o ‘‘fechamento’’ do negócio, começou a confusão. Maria Emi avisou ao casal que o sítio que eles tinham comprado estava com problemas de inventário e não poderia mais ser vendido. Por isso, ela teria oferecido outro sítio, também em Tamarana, com quatro alqueires e que custaria um pouco menos que o primeiro: R$ 42 mil (posteriormente, o casal descobriu que o sítio valia, no preço de mercado, R$ 20 mil).
O pai de Claudemir voltou a Londrina para conhecer a nova propriedade e aprovou o negócio. Os documentos da propriedade também ficaram na promessa. O casal confiou, mais uma vez, na palavra da corretora - que dizia ser evangélica - e continuou fazendo os depósitos mensais.
Claudemir e Maria Ramos começaram a desconfiar do golpe em janeiro deste ano, quando o escritório que a Emi mantinha no Japão foi fechado. ‘‘Perdemos o contato que a gente tinha lá. Antes, o próprio L (corretor) disse que iria mostrar a papelada durante o pagamento das prestações e não mostrou’’, recorda o casal. A partir daí, eles passaram a exigir da imobiliária pelo menos os recibos de pagamento. A corretora enviou declarações de pagamento, em papel timbrado, embora sem reconhecimento de firma e também sem a descrição do imóvel. Curiosamente, também informou a José Nagao que o preço do sítio tinha baixado para R$ 40 mil.
Em março, no entanto, o casal já tinha depositado cerca de US$ 32 mil na conta de Maria Emi e uma parte também na conta da filha dela, Luciana Silva Oliveira, em várias parcelas. Sem contar os R$ 10 mil dados em dinheiro. ‘‘Até então, ela (Emi) dizia para a gente não se preocupar com os depósitos, que ela controlava tudo’’, explicou Maria Ramos.
Depois de março, a coisa ficou ainda mais complicada: pressionada para esclarecer a situação, Maria Emi deixou de atender os telefonemas. ‘‘Ela mentia, dizia que a irmã estava doente e não respondia’’, recorda a dekassegui . Sobraram apenas, como prova do negócio, os comprovantes de depósito bancário, nos nomes de Maria Emi e da filha, além dos ‘‘recibos’’ de pagamento.
O padrinho de Maria Ramos, Nilton Neves, que mora em Londrina, foi até a imobiliária no mês passado para saber o que estava acontecendo. Em princípio, ele se passou por um comprador interessado pelo sítio e pediu para ver as escrituras. No primeiro dia, Maria Emi disse que iria mostrar os documentos no encontro seguinte. Depois, já sabendo de quem se tratava, informou a Neves que o negócio com os dekasseguis não tinha dado certo e que ela iria devolver o dinheiro para o casal. ‘‘Foi quando percebemos que não tinha contrato de compra e venda e que os recibos eram frios’’, recorda Olinda Neves, esposa de Nilton e madrinha de Maria Ramos.
A partir daí, segundo o casal, Maria Emi começou a ‘‘enrolar’’ ainda mais e não devolvia o dinheiro. A imobiliária chegou a fazer uma proposta, considerada por eles indecente: pagar R$ 5 mil no ato e o restante em ‘‘suaves prestações’’, o que foi prontamente negado pelo casal. A confiança na corretora já tinha se esgotado. Preocupados, o casal voltou do Japão há 15 dias e, do aeroporto de Londrina, foi direto para o Procon. Lá, tentaram alguns contatos com a corretora, todos em vão.





