Dekassegui terá manual de sobrevivência
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sexta-feira, 04 de setembro de 1998
Israel Reinstein 
A Associação de Apoio aos Dekasseguis (AAD) pretende lançar, em dois meses, um manual de sobrevivência para o migrante que for trabalhar no Japão. O livro de instruções deve contar com noções básicas sobre agenciadores de emprego e também especificar sobre garantia trabalhista e forma de conseguir ajuda em território japonês. São frequentes as situações de conflitos entre brasileiros e japoneses, muitas vezes resultado das diferenças culturais, mas em outras vezes provocadas pela má-fé das agências de empregos, informou o advogado Etsuo Ishikawa, que trabalha numa assessoria jurídica para dekasseguis em Hamamatsu, Japão.
Etsuo Ishikawa, que esteve em Curitiba na última quinta-feira, conta que diariamente presta entre 15 a 20 consultas a brasileiros com alguma queixa envolvendo trabalho ou relacionamento com japoneses. Tudo isso é provocado pela falta de identificação entre as duas nacionalidades, que não conseguem entender a cultura do outro e estabelecer um diálogo, avaliou Ishikawa, que é brasileiro.
O advogado contou que o dekassegui se sente isolado por não conseguir se comunicar. E nessa situação ele acaba sendo enganado, porque não entende o que o seu patrão fala, disse. Ishikawa diz que o migrante, na maioria das vezes, acaba ganhando menos do que os agenciadores prometem. No primeiro salário, tem descontado o valor da passagem de avião. Além deste ato ser ilegal, o maior problema é que o desconto ultrapassa em muito o valor pago por uma passagem ao Japão, disse o advogado. Isso acontece porque no desconto estão embutidos custos das agências.
Mas o problema do dekassegui não começa no desconto do salário, mas na saída do Brasil, disse a advogada Lilian Yuriko Hirae, assessora jurídica da Associação de Apoio aos Dekasseguis. Quando o brasileiro está prestes a embarcar para o Japão, a empresa força a assinatura de uma nota promissória de valor duvidoso, muitas vezes superior ao valor das passagens. Neste momento, o trabalhador fica numa situação complicada, porque se desfez de bens e emprego para arriscar a vida no Japão e, por isso, não tem opção de mudar de posição, disse Lilian.
Essa promissória acaba servindo de arma para as agências e empregadores japoneses. Quando o brasileiro se cansa de ser enganado e quer voltar ao seu país, eles ameaçam executar a nota promissória no Brasil, sujando o nome dele. Ele acaba não tendo como voltar atrás e continua no trabalho até o fim do contrato.
Ishikawa disse que para resolver este problema seria preciso uma ação governamental. O Japão precisa dos 230 mil brasileiros que trabalham nas fábricas, mas, ao invés de proporcionar melhores condições aos migrantes, abriu apenas meia-porta, legalizando apenas o direito de trabalho ao estrangeiro.Marcelo AlmeidaSocorroO advogado Etsuo Ishikawa trabalha numa assessoria jurídica para dekasseguis em Hamamatsu, no JapãoCartilha será lançada dentro de dois meses, para ensinar imigrantes a lidar com os agenciadores e como obter ajuda
Advogado atende entre
15 a 20 brasileiros
por dia com queixa
de trabalho


