Por duas vezes, a vendedora ambulante Avelandia Pereira da Rocha, de 57 anos, perdeu na cidade a Bíblia que carregava. Em um desses momentos de distração, ela estava usando o orelhão do Terminal Urbano de Londrina, onde costuma tomar ônibus para a zona leste. No dia seguinte, voltou ao local e encontrou o livro à espera dela, na sala de achados e perdidos. "Na outra vez estava no ônibus e não consegui achá-la mais. De repente, quem encontrou estava precisando mais do que eu", brinca.
Objetos como o que a usuária esqueceu reforçam a lista de "achados" inusitados que aguardam pelos donos no Terminal. Quem trabalha na área diz até que o lugar é palco de "milagres" – tem quem chegue de muletas e saia andando sem necessidade do apoio. O mesmo ocorre com bengalas, que, hoje, servem só para ocupar espaço nas salas que guardam os objetos. "Outro dia teve um caso de uma pessoa que passou mal, foi socorrida pelo Samu e acabou deixando a cadeira de rodas. Mas nós a encontramos e levamos a cadeira para ela depois", relata o coordenador do terminal, Marcelo Soares.
Segundo ele, são perdidos, em média, cinco objetos por semana no local. Um número até considerado baixo diante da quantidade de pessoas que circulam diariamente pelo terminal: cerca de 60 mil. Quando chove, a tendência é que os guarda-chuvas entrem em cena. Não é à toa que eles são os campeões nos achados e perdidos. E engana-se quem pensa que são deixados de lado. "Os donos voltam para buscar, sim", pontua Soares.
Cada objeto levado à central de achados e perdidos costuma ficar até 30 dias guardado. Quando se trata de documentos, a equipe que cuida do espaço usa até a tecnologia na tentativa de localizar o dono. Buscam nas redes sociais, pesquisam na internet. Na maioria das vezes, conseguem contato. Quando isso não acontece e o prazo se encerra, encaminham o "achado" para os Correios, que, por sua vez, o envia para o órgão expedidor. Cada vez que alguém reivindica a posse de um objeto encontrado, é necessário assinar um termo de entrega.
Soares observa que, enquanto guarda-chuvas quase sempre são buscados pelos donos, capacetes, celulares de última geração, óculos de grau, flores de plástico, carteiras, sapatinhos de bebê, bolsas e até marmitas acumulam poeira nos armários. As chaves já renderam até um molho com centenas de exemplares.
Itens de valor vão para uma sala no andar de cima do Terminal, apelidada de "Sala dos milagres". É lá que ficam as bengalas e a muleta esquecida. O espaço abriga ainda aparelho receptor para antena parabólica e roupas, ainda em bom estado. As peças nem sempre são desfeitas. A maioria fica à disposição para caso um usuário do Terminal passe por algum tipo de incidente e precise de uma "ajuda" para ir embora. Todos os objetos encontrados nos demais terminais urbanos da cidade seguem para o central.
Na Rodoviária, o prazo para buscar os achados e perdidos é um pouco mais elástico – de seis meses a um ano. De acordo com o superintendente do Terminal Rodoviário, Sandro Roberto Boldieri Neves, é comum que os passageiros deixem por lá malas, frasqueiras e até objetos menores como anéis e relógios. "A pessoa, às vezes, vai ao banheiro e na hora de lavar as mãos tira o anel e o coloca em cima da pia. Acaba esquecendo", conta. Quem não vai buscar o que perdeu em até um ano tem o objeto doado para uma instituição de caridade.

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