O diagnóstico é de uma crise aguda. Como consequência, o tratamento de pacientes que fazem quimioterapia pode ficar comprometido. Único hospital na região especializado em oncologia, o Instituto de Câncer de Londrina (ICL) atende 3 mil pessoas mensalmente, trabalhando com um déficit mensal de R$ 200 mil, acumuladando dívida de R$ 8 milhões.
A londrinense Áurea Divina Domingues Afonso, 44 anos, chegou ao hospital por volta das 7 horas da manhã e, pouco depois das 9 horas, esperava pelo transporte que a levaria para casa com um preocupação a mais: pela terceira vez consecutiva não conseguiu iniciar a sequência de quimioterapia para tratar um câncer na mama. ''Vou ter que esperar em casa, o hospital telefonar, avisando para eu começar a quimioterapia'', afirmou a dona de casa, acompanhada da mãe, Tereza do Espírito Santo Domingues, 70 anos.
Luiza Nazato de Lima, 50 anos, vem de Arapongas (37 quilômetros a oeste de Londrina) ao ICL a cada 30 dias para tratar um câncer de pele. ''Há quase 60 dias espero por uma consulta com um dermatologista e não consigo'', conta a dona de casa, que há 19 anos luta contra a doença.
As duas senhoras representam os 92% dos pacientes atendidos pelo ICL, através do Sistema Único de Saúde (SUS), sendo que apenas 8% são usuários de convênios médicos.
''Na verdade, o hospital acumulou durante esses anos todos várias funções paralelas à defasagem de receita e despesas, que gerou um déficit. Houve uma mudança na direção e o novo diretor-presidente, Nelson Dequech, está trabalhando para zerar esse déficit'', ressalta o diretor clínico do ICL, Cassio José Abreu.
Além das dívidas trabalhistas e com fornecedores, o alto custo de alguns quimioterápicos é responsável pelo déficit de R$ 200 mil por mês, com um valor acumulado de R$ 8 milhões. O diretor clínico ressalta que algumas dessas dívidas são renegociáveis. Ele acrescenta que o custo com pacientes internados é responsável por grande parte do déficit.
A instituição dispõe de 157 leitos, incluindo os de tratamento clínico, cirúrgicos e de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs).
O SUS paga uma diária de R$ 20,00 por uma internação clínica, enquanto o custo é de R$ 150,00. A última atualização na tabela de pagamento de quimioterápicos do SUS ocorreu em 1999. O valor é fixo, tirado de uma média.
Para tratar um paciente com um tumor no sistema nervoso central, por exemplo, o SUS paga R$ 500,00, enquanto o tratamento com o medicamento custa R$ 9 mil ao mês.
Mesmo com a incorporação de novas drogas aos tratamentos ancológicos, como o Glivec, recomendado para tratar a leucemia mielóide crônica, a tabela continua a mesma de 1999. Nesse caso em particular, o custo chega a R$ 5 mil. Por ser um medicamento novo, com bons resultados no tratamento, o Ministério da Saúde editou uma portaria específica para o pagamento do Glivec, que já apresenta uma defasagem de pelo menos R$ 500,00.
Abreu lembra que, embora os repasses do SUS não estejam atrasados, os R$ 800 mil do sistema não cobrem o total das despesas mensais do hospital, que é de R$ 1 milhão. ''A partir deste mês, esperamos melhorar a nossa situação para que possamos atender, principalmente os casos em que o tratamento quimioterápico faz a diferença. São casos que temos priorizado'', afirma Abreu, acrescentando que a instituição iniciou um trabalho, pedindo a colaboração da sociedade, contando ainda com a antecipação dos repasses de pagamentos dos medicamentos de alto custo.
Abreu confirma que o déficit do hospital está fazendo com que alguns pacientes, principalmente os que fazem uso das drogas mais caras, tenham que esperar até uma semana pelo medicamento.
O diretor afirma que a descontinuidade no tratamento pode comprometer a saúde dos pacientes nessa situação. ''Se não mantiver regularidade sim, é uma situação que preocupa'', afirma o médico, acrescentando que de 80% a 90% dos pacientes não estão na lista dos que precisam fazer uso dos medicamentos mais caros.
Sobre a falta de médico, Abreu afirma que o corpo clínico na especialidade oncologia é completo. ''Existem algumas especialidades fora da ancologia e que alguns médicos, por algum motivo, se desligaram do hospital. O que fazemos é encaminhar os pacientes para postos de saúde''.
O diretor lembra as pessoas que queiram contribuir com o hospital que façam as doações diretamente pelo telefone 3343-3300. ''Existem algumas Ongs que usam o nome do hospital e não repassam as contribuições. As pessoas contribuem achando que o dinheiro vem para o hospital. Porém, essas organizações somente usam o nome do hospital. Os que quiserem contribuir com o ICL que o façam diretamente à instituição''.

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