Desde o início de maio, dez crianças e jovens com deficiência visual têm frequentado aulas gratuitas de judô uma vez por semana. A iniciativa partiu do próprio instrutor, Edegar Kimura, da Academia Magoo. ''Desde o segundo ano da faculdade, eu já tinha interesse em trabalhar com deficientes. Agora, consegui falar com o pessoal do Instituto dos Cegos e fazer essa parceria'', conta.
A aceitação foi tão boa que Kimura já planeja inclusive novas etapas em seu trabalho. ''Se tiver algum aluno que queira participar de campeonatos, eu vou investir nisso'', informa, lembrando porém que o foco principal da iniciativa é o bem-estar e a felicidade dos alunos. ''Saber que eles estão empolgados, vê-los alegres durante as aulas é uma grande satisfação. É um sonho que eu tinha faz tempo'', conta.
Entre os benefícios da prática do judô pelos deficientes, o professor destaca a autoconfiança. ''Os deficientes visuais geralmente têm muito medo de cair, e por isso vivem tensos e ansiosos. O judô ensina a ter mais confiança. A auto-estima também melhora, e diminui a ansiedade'', enumera.
O professor explica que a dificuldade visual é compensada pelos outros sentidos, o que permite um bom rendimento nas aulas. ''Eles têm a audição mais aguçada, então eu falo uma vez e eles já entendem, enquanto para as crianças ditas normais é preciso repetir várias vezes. O ensino para eles é muito verbal e prático, enquanto para as outras crianças costuma ser visual'', compara. Kimura confessa que ele próprio também está aprendendo com esses alunos. ''A gente sempre pensa que quem é cego tem muitas dificuldades, mas não é bem assim, são crianças como quaisquer outras.''
Para a professora Fátima Aparecida de Assis, que leciona Educação Física para os alunos do Instituto dos Cegos, a disciplina é outro fator importante na arte marcial. ''O judô trabalha bastante a disciplina e respeito. Essa mudança no comportamento tem repercutido bastante no dia-a-dia deles'', avalia. A professora lamenta que, apesar do interesse ser grande, alguns alunos não podem realizar atividades físicas de impacto devido à patologia. ''No Paraná, o Edegar deve ser a primeira pessoa a fazer esse trabalho, e sua atitude é maravilhosa. Ele até empresta quimono para os alunos'', elogia.
''Fiquei bastante empolgado, e cada vez gosto mais. É tudo tão legal que nem tenho como dizer o que eu gosto mais no judô'', revela Alef Campos Garcia, 13 anos, que antes só conhecia a arte marcial pela tevê. Uma doença congênita fez com que o garoto fosse perdendo a visão gradativamente, e hoje ele enxerga muito pouco. Alef conta que, por conta do judô, hoje se sente mais seguro para andar nas ruas. ''O judô me deu mais confiança, me ensinou como cair, já sei me proteger. Também me motiva para ir pra escola e no dia-a-dia, porque a gente não pode deixar de cumprir com as obrigações.'' Para a mãe de Alef, Patrícia Arruda Campos, a iniciativa deveria ser adodata por outras academias, dando oportunidades também para pessoas com outros tipos de deficiências.
Os irmãos gêmeos Anderson e André, de 8 anos, esperam a semana inteira para chegar o dia da aula. ''Eles estão de pé desde as seis da manhã. Se eu falo brincando que eles não vão, acham ruim'', conta o pai, Celso Eloir de Alcântara. Apesar de treinarem juntos, fora do tatami os irmãos são orientados a não praticar as técnicas para não se machucarem. ''A gente aprende como fazer para não bater a cabeça, quando sobe em uma árvore. E se quiserem bater na gente ou se vier um ladrão assaltar a gente dá um golpe'', afirmam.

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