Edson Mazzetto




Encontro dos deficientes visuais no seminário ‘‘Da Tutela à Cidadania’’ neste final de semana; Alfredo Carvalho começou a perder a visão aos 8 anosA criação da União Paranaense de Entidades de Cegos foi tema do seminário estadual ‘‘Da Tutela à Cidadania’’, realizado no final de semana em Cascavel. O assunto será debatido também no Sudoeste e no Norte do Estado, antes de ser levado a um congresso, em Curitiba. A informação é da Associação Cascavelense de Deficientes Visuais (Acadevi), que realizou o seminário em parceria com a Secretaria de Estado da Criança e Assuntos da Família.
O presidente da Acadevi, Ênio Rodrigues da Rosa, 37 anos, perdeu completamente a visão há 4 anos. Ele lembra que na Grécia Antiga o culto à beleza e força física resultava até na exorcização ou eliminação de pessoas com deficiências: ‘‘Hoje, se os tempos são outros, ainda falta ao portador de deficiência a inserção na sociedade como cidadãos plenos e sem serem tutelados’’.
A fundação de uma entidade estadual, segundo Ênio, ajudaria a evitar a tutela e a desenvolver programas de capacitação e colocação de pessoas cegas no mercado de trabalho, com participação da família, da escola e do governo: ‘‘Para que sejamos sujeitos e não objetos de nossa história’’.
Segundo ele, a inserção dos cegos na sociedade deverá ocorrer quando o deficiente visual deixar de ser adjetivado como ‘‘ceguinho e coitadinho’’. Ênio diz que embora os tempos da Grécia Antiga estejam superados, ainda permanece a estigmatização aos portadores de deficiências.
Em Cascavel, mencionou o presidente da Acadevi, uma fábrica de elevadores emprega oitenta deficientes. Dieter Fanta, o presidente da empresa, participou de um seminário de Ação Social e relatou que alguns dos deficientes empregados trabalham em suas casas. O empresário observou que há no Brasil 15 milhões de portadores de deficiências.
VestibularEntre os envolvidos na proposta de criação da entidade estadual de cegos está Alfredo Carvalho, 37 anos, de Cascavel. Ele começou a perder a visão aos 8 anos, quando residia em Cornélio Procópio (Norte do Paraná). No início do ano, Alfredo fez vestibular para Pedagogia na Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) e foi o primeiro colocado.
Uma banca especial aplicou as provas, que foram respondidas em braile. Alfredo obteve 766 pontos. Em 96, o primeiro colocado no vestibular para o mesmo curso, dotado de visão, obteve 722 pontos.
AbaloAlfredo é o primeiro cego aprovado na Unioeste e nas aulas acompanha as lições auditivamente, inclusive com auxílio de fitas cassete para os trabalhos em casa. O deficiente visual conseguiu fazer o 1º ano escolar em Cornélio Procópio, mas seu problema começou a se agravar e teve que parar.
Aos 12 anos, já em Cascavel, tentou retornar à escola: ‘‘Mas a professora disse que não seria possível eu frequentar aulas ao lado de outros alunos, o que me causou grande abalo emocional, porque isto poderia representar definitivamente minha segregação’’.
Hoje, Alfredo avalia: ‘‘Aquela professora quase conseguiu me derrubar’’. Ele só conseguiu ser alfabetizado aos 31 anos de idade e a seguir fez o curso supletivo, habilitando-se no 2º grau e podendo prestar o vestibular. Alfredo se mantém com R$ 120,00 por mês que recebe da Previdência. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 10% de população mundial têm deficiência. As de ordem mental atingem 5%, física 2%, auditiva 1.5%, múltipla 1% e visual 0.5%.

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