Alecrim, capim-cidreira, pimenta, urucum: em meio à profusão de cheiros de uma estante repleta de ervas, deficientes visuais iniciaram na quinta-feira o Curso de Cultivo de Plantas Medicinais, promovido pelas secretarias municipais da Mulher e Agricultura de Londrina. As aulas vão até o ano que vem e são direcionadas a pessoas atendidas pela Associação dos Deficientes Visuais de Londrina (Adevilon).
Donos de olfato apurado - um dos mecanismos para compensar a ausência total ou parcial de visão - os 11 alunos inscritos no curso não deverão ter grande dificuldade para aprender ''quem é quem'' no universo das plantas medicinais. Na primeira aula, entretanto, quase tudo era novidade. ''Eu só conhecia o coloral. Acho que o curso vai ser bem interessante'', disse Tânia Regina da Silva Vieira, 45 anos. Ávida por conhecer as plantas, ela foi logo utilizando os sentidos de que dispõe: tocou, cheirou e até mastigou uma folhinha de espinheira-santa.
A aluna é uma dessas provas vivas de que quem determina quais são os limites não é a deficiência, mas o próprio deficiente. No caso dela, são poucos. Há três anos Tânia resolveu morar sozinha com o marido em uma chácara. Detalhe: ambos têm cegueira total. ''No começo foi difícil. Coloquei arames para delimitar o caminho do galinheiro e do lago. Um dia, retirei porque já tinha aprendido por onde andar'', contou. O casal já cria aves para comercialização e agora pretende lucrar também com o cultivo de plantas.
Segundo o engenheiro agrônomo Guilherme Casanova Júnior, que ministra o curso, os alunos estão aprendendo sobre cultivo, colheita, secagem e outros aspectos da condução de plantas medicinais. Ao final das aulas, poderão tanto criar suas próprias hortas domésticas quanto explorar economicamente as técnicas. ''Eles também poderão ser multiplicadores do conteúdo'', assinalou.
A tesoureira da Adevilon, Isa Valbuena Martinez, que também participa do curso como aluna, explicou que os deficientes assumiram o compromisso de ensinar o que aprenderem para famílias carentes. ''É um conhecimento muito importante, pois representa economia. Pequenas dores poder ser tratadas com ervas, sem necessidade de apelar para farmácias'', observou.
O curso está sendo realizado no Espaço Mulher, um centro de formação e capacitação profissional localizado na Zona Leste de Londrina. De acordo com Casanova Júnior, o lugar abriga um dos únicos hortos do Paraná com acessibilidade para deficientes, incluindo formato paisagístico especial e placas em braile. Atualmente, entretanto, o horto passa por reforma e só poderá ser utilizado para aulas práticas em 2007.
A responsável pelo Espaço Mulher, Lisnéia Aparecida Rampazzo, frisou que vários cursos são abertos ao longo do ano no local, como os de camareira de hotel, reaproveitamento de alimentos, tear e serviços domésticos. Informações podem ser obtidas pelo telefone (43) 3378-0575.

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