Deficientes trabalham em montagem de cadeados
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quinta-feira, 30 de abril de 1998
Adriana De Cunto 
Josoé de CarvalhoProdutivosDeficientes atuam na montagem de cadeados: produção vem aumentandoPelo menos 12 pessoas de Cambé (13 quilômetros a oeste de Londrina) têm um bom motivo para comemorar hoje o Dia do Trabalho. Depois de anos sem emprego, um grupo de deficientes físicos vai conseguir a esperada colocação no mercado. Há 15 dias eles estão trabalhando na montagem de cadeados para a empresa Pado, líder nacional de mercado, instalada em Cambé desde outubro do ano passado. Eles são filiados à União de Deficientes Físicos de Cambé (Unidef).
O 1º de Maio vem com sabor de dupla comemoração: a conquista do emprego e a vitória contra o preconceito. A presidente da Unidef, Ivani de Souza Lima, 28 anos, contou que a boa notícia veio há cerca de 15 dias, por um contato com o prefeito José do Carmo Garcia (PTB). Ele havia sido procurado por diretores da Pado, interessado em terceirizar a montagem dos cadeados e contratar uma cooperativa ou entidade.
A Unidef agiu rápido e imediatamente fez convênio com uma cooperativa de trabalhadores autônomos de Maringá. Há 15 dias, eles começaram a trabalhar em um galpão alugado pela prefeitura na Avenida Belo Horizonte, bem na entrada de Cambé.
Ivani Lima disse que a contratação foi a melhor surpresa dos últimos tempos: O preconceito é muito grande. Dificilmente os empresários nos dão alguma chance. Eles não querem nem saber se temos capacidade. Quando a notícia do convênio com a Pado se espalhou pela cidade, o número de associados da Unidef passou de 230 para 260. A cada dia, a sede da entidade é procurada por um número de pessoas que varia entre 10 e 40 pessoas.
Para ocupar uma das 12 vagas iniciais, o candidato precisava ter no mínimo 18 anos e não apresentar deficiência nos membros superiores. Na primeira semana de trabalho, os interessados passaram por um treinamento com os funcionários da empresa.
Segundo a presidente da Associação, a produção vem aumentando. Começou com 600 cadeados por dia e hoje está em 2.300 unidades por dia. A meta dos 12 empregados, que ganham por unidade, é levar a produção para 4.800 cadeados por dia. Quando o objetivo for alcançado, o salário mensal no barracão da Unidef vai se igualar ao dos operários da Pado, cuja média é de R$ 220,00.
Dentro de um mês, serão abertas novas vagas também para a montagem de cadeados e o convênio com a Pado deverá beneficiar ao todo 40 deficientes físicos de Cambé. Ela tem esperança que o exemplo sirva também para outras empresas. Acredito que outras indústrias vão nos procurar.
O emprego veio tirar do sufoco a família de José Joaquim Neto, 30 anos, casado e pai de dois filhos - Jaqueline, 4 anos, e Anderson, 2 anos. Há cerca de um ano desempregado, José Joaquim disse que já tinha procurado várias empresas em busca de trabalho. Em algumas, o preconceito ficou evidente. Teve gente que disse que não poderia me contratar porque sou deficiente. Em outros lugares, o motivo da não-contratação era a baixa escolaridade. Mas isso era desculpa. Sei que é por causa do meu problema.
Ele contou que, devido a uma doença congênita, tem problemas em uma das pernas e se locomove com a ajuda de muletas. Agora, ele acredita que tem chance de mostrar que é deficiente, mas é batalhador. José Joaquim mora na vila rural João Inocente e vai diariamente para o trabalho em uma kombi daquela comunidade. Agora eu posso dar um futuro melhor para os meus filhos, comemorou.
Celso dos Santos, 18 anos, procurava emprego há oito meses e hoje pode respirar aliviado. Principalmente porque a mulher está grávida de quatro meses. O rapaz morava no Jardim Ana Elisa e também anda com ajuda de muletas por causa de uma paralisia infantil quando ainda era bebê.
Cláudia Regina Storti, 19 anos, sente, pela primeira vez, a sensação de estar empregada e ganhando o próprio dinheiro. Ela disse que há muito tempo tinha vontade de trabalhar, mas nunca bateu às portas de uma indústria atrás de uma oportunidade. Os deficientes que procuravam e não conseguiam trabalho me contavam das dificuldades e do preconceito, justificou.
A garota mora com os pais e um irmão no Conjunto Cambé 3. Em consequência de complicações no parto, tem problemas na coluna e também precisa de muletas para se locomover. Todo mundo deveria dar uma oportunidade como esta para os deficientes, disse. É muito bom a gente poder ganhar o nosso próprio dinheiro e ajudar em casa.
Quem coordena o trabalho do grupo é o fundador da Unidef, Wilson Magri, 57 anos. Ele não tem problemas físicos, mas criou a associação, há 17 anos, por causa de um filho, que é deficiente. O pessoal está trabalhando muito bem. É um exemplo.
O presidente do Conselho de Administração da Pado, Alfons Gardemann, também está satisfeito com o empenho dos novos operários. Para ele, os deficientes físicos têm muita capacidade para trabalhar. Só é preciso encontrar um trabalho adequado para o deficiente. Segundo o presidente, a produtividade do pessoal da Unidef está demonstrando ser a mesma dos operários que trabalham na fábrica.
Gardemann diz que não houve cortes de funcionários na Padp. A terceirização significou, segundo ele, uma ampliação do setor. Todos os empresários que tiveram oportunidade de terceirizar a montagem, deveriam tentar isso (o convênio com a Unidef). Nós estamos satisfeitos. A Pado produz 400 mil cadeados por mês (21 mil por dia) e metade desta produção será responsabilidade dos deficientes físicos.


