Deficientes têm direito à vida sexual
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de agosto de 1997
Edmara Michetti Londrina 
Josoé de CarvalhoMary Neide: sem rodeios Portadores de deficiências mentais têm o mesmo desejo sexual que pessoas não deficientes. Assim, eles têm o direito de serem informados sobre o assunto e isso significa ter direito também ao prazer sexual. O caminho mais descomplicado para isso é a masturbação. O raciocínio é da psicóloga Mary Neide Damico Figueiró, mestre em Educação Sexual pela Universidade de São Paulo (USP) e responsável pelo projeto de extensão da Universidade de Londrina (UEL) que assessora educadores sexuais.
Mary Neide falou sobre a Sexualidade do Portador de Deficiência para pais de deficientes. A palestra faz parte da programação da Semana Nacional da Pessoa Portadora de Deficiência. Com o objetivo de desmistificar a masturbação, Mary Neide afirma que ela faz parte do desenvolvimento de toda criança. Os pais não precisam se preocupar porque a masturbação não faz mal. É a forma da criança conhecer o corpo dela e sentir prazer.
O problema, segundo Mary Neide, é a reação dos adultos ao verem uma criança se masturbando. A psicóloga afirma que o pavor e a reprovação dos pais através de palavras, fisionomia ou olhares, não impede que a criança volte a se masturbar. Ela vai continuar acariciando o pênis ou a vagina em busca do prazer só que com sentimento de culpa. Então é preciso tomar cuidado com o comportamento diante da criança, diz. O correto, segundo ela, é ensinar a criança que masturbar-se é bom, mas que ela deve fazê-lo em locais reservados. Para os deficientes, ela defende, a masturbação acaba sendo uma alternativa já que a maioria não tem parceiros para uma vida sexual. Ela é a forma de aliviar a tensão sexual desses deficientes, argumenta. A psicóloga explica que enquanto numa criança normal a sexualidade começa a aflorar na primeira infância, no deficiente mental ela se retarda porque o desenvolvimento intelectual é mais lento. Por isso, os portadores de deficiências mentais vão fazer mais tarde o que as crianças normais fazem com três, quatro anos, informa. Para exemplificar, ela cita o caso de um jovem que ejaculava enquanto dormia e os pais foram orientados pelo psicólogo a ensiná-lo a se masturbar antes de dormir. Aí ele dormia tranquilo, diz. Ela admite não ser fácil para os pais, mas eles devem orientar os filhos deficientes mentais a obterem prazer sexual.
A educação sexual, na opinião de Mary Neide, deve ser feita pela família e pela escola. Com os professores fica a educação formal, sistemática. Os pais devem se preocupar, segundo ela, a fazer a parte informal através de pequenas atitudes do dia-a-dia. Ela orienta que quando a criança tira a roupa, por exemplo, não se deve recriminá-la dizendo que o pênis, a vagina ou qualquer parte do corpo é feia e por isso deve ficar coberta. O ato sexual, segundo ela, deve ser tratado e explicado de forma simples e tranquila. Os pais devem dizer que quando o casal se ama, se abraça, troca carinhos. Então o pênis fica duro e a vagina umedecida e o pênis penetra na vagina. E, ainda, que a partir daí o casal pode gerar um filho se o espermatozóide se encontrar com o óvulo, ensina. Tudo tem que ser ensinado sem rodeios, sem historinhas.
A diferença da explicação no caso dos deficientes mentais, segundo Mary Neide, está na necessidade de mais repetições. A educação sexual só é inviável, de acordo com a psicóloga, com os deficientes mentais de graus profundo - que têm idade mental de 1 ano - e severo - idade mental de 2 anos. A dificuldade no caso dos deficientes de nível profundo é que não se comunicam verbalmente e os de nível severo o fazem com comunicação verbal rudimentar. Para os deficientes mentais moderados (idade mental de 6 anos) e leves (idade mental de 12 anos) é possível dar explicação. Os pais só terão que repetir várias vezes. Mary Neide ressalta também a importância do contato físico com as crianças deficientes mentais.
A Semana Nacional da Pessoa Portadora de Deficiência continua até sexta-feira com várias atividades envolvendo todas as entidades de educação especial. Na quarta e sexta-feira, a psicóloga Mary Neide vai falar aos professores das escolas que trabalham com deficientes.
De acordo com um censo realizado no ano passado, Londrina tem 4 mil deficientes que, realmente, necessitam de cuidados especiais. O número inclui todos os tipos de deficiências - física, auditiva, visual e mental. Metade desses londrinenses têm deficiências mentais. Mas os dados, segundo a coordenadora do programa de portadores de deficiência da Secretaria Municipal de Ação Social, Maria Inez Mazer Barroso, não revelam a realidade.
O deficiente físico não dá para esconder, mas o preconceito ainda faz com que a família oculte seus deficientes mentais, lamenta. Com a Semana, Maria Inez afirma que as entidades ligadas aos deficientes, querem incomodar a sociedade, mostrando que o deficiente está aí e precisa levar uma vida normal.


