Londrina - Com o objetivo de combater o histórico de exclusão, a lei federal 8.213/91 prevê que as empresas com 100 ou mais funcionários preencham de 2% a 5% de seus cargos com beneficiários reabilitados ou pessoas com deficiência. Apesar da obrigatoriedade da lei de cotas existir, muitas empresas não criam um ambiente real de inclusão, preterindo, inclusive, alguns tipos de deficiência. Exemplo disso é a dificuldade que pessoas com atraso cognitivo ou deficiência intelectual passam para ingressar no mercado de trabalho. Isso porque a capacidade de cada um varia e as adaptações ao ambiente também.
Entre os principais entraves estão o preconceito e ações discriminatórias. Até hoje, a deficiência intelectual e cognitiva é considerada uma demência que compromete a racionalidade e controle comportamental. Em geral, existem características em comum, como maior dificuldade de comunicação e concentração, mas nada que impeça o desenvolvimento profissional. Empresas que tiveram a experiência garantem que, superados os obstáculos iniciais, a convivência é tranquila e harmoniosa. "Nós aprendemos mais com eles que eles conosco", diz a analista de recursos humanos da empresa PB Lopes, revenda de caminhões, Andrea Cândido. No local, dois funcionários dividem as tarefas na recepção. "Os meninos auxiliam com as correspondências e malotes. São muito organizados e responsáveis com suas atribuições. Além disso, são extremamente disciplinados com as normas da empresa."
A assistente social do Hospital do Coração, Júlia Pupin Campos, comenta que a convivência com os deficientes cognitivos está sendo mais fácil que imaginavam. "No início, há uma apreensão dos funcionários de como vai ser a relação. Mas, em seguida, todos percebem que eles aprendem rápido, além de ser muito responsáveis e corretos." A iniciativa de receber os deficientes foi há oito meses, pois, até então, as cotas eram preenchidas, principalmente, por deficientes físicos. "Essa integração, além de propiciar dignidade a esses jovens, torna o ambiente mais humano. A vinda deles nos ajudou a desmistificar a capacidade dessas pessoas", conta.
Thiago Silva Sanches, de 31 anos, e Athos Escudero, de 30, comemoram a primeira oportunidade profissional que já dura quatro anos. Ambos trabalham na recepção da revenda de caminhões. "Eu sempre quis muito trabalhar. Quando via meus amigos começando (um emprego) e eu não, ficava chateado. Foi, então, que me chamaram; demorei para acreditar que fosse verdade. Cheguei a emagrecer 10 quilos quando entrei de tão ansioso que fiquei no período de experiência", conta Thiago, que teve paralisia cerebral pelo nascimento prematuro. Com vários estímulos, recebidos durante a vida na Apae, desenvolveu diversas habilidades, inclusive a da comunicação.
Com o primeiro salário, lembra que comprou seu notebook. Depois disso, passou a ajudar os pais nas despesas de casa. "Eu tinha um benefício que abri mão, pois é muito melhor ganhar um salário. Meu sonho agora é trabalhar em período integral para receber ainda mais." O dinheiro extra, segundo ele, é para guardar na poupança para o futuro. "Ainda não sei o que pretendo fazer, pode ser que ajude minha mãe a reformar a casa", diz orgulhoso. Além da questão financeira, nesse tempo em que está trabalhando, garante que conquistou muita independência. "Ando de ônibus sozinho agora. Não paro mais em casa."
Athos também pretende trabalhar em período integral e, assim, ganhar mais. Como primeiro objetivo, deseja trocar o mobiliário da casa toda e, quem sabe, morar sozinho. "Penso em iniciar um financiamento para ter minha casa própria", diz o rapaz, que possui deficiência mental leve por causa do nascimento prematuro. Enquanto faz planos para a vida financeira, também pensa em voltar a estudar. "Com estudo eu posso tentar um cargo melhor na empresa", comenta ele, que tem como atribuições separar malotes, entregar correspondências e fazer fotocópias de documentos e arquivos.

Lei prevê que companhias com 100 ou mais funcionários preencham de 2% a 5% de seus cargos com deficientes
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