Deficiente mental é queimada em cela
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quarta-feira, 28 de outubro de 1998
Alexandre Sanches 
A família de Luciana Aparecida Sanches, 23 anos, de Jataizinho (25 km a leste de Londrina) responsabiliza a polícia local pela morte da moça, anteontem à noite. Ela estava internada desde o dia 14 no Hospital Evangélico de Curitiba para onde foi transferida, vítima de queimaduras de terceiro grau, provocadas dentro da cadeia de Jataizinho. Um policial alegou ontem que Luciana se queimou sozinha.
De acordo com a denúncia, feita ao advogado do Centro de Direitos Humanos em Londrina, Osni Rebelo, Luciana era portadora de deficiência mental e no dia 25 de setembro foi presa, acusada de ter roubado uma carteira. Na cadeia, dividia a cela com uma presa condenada. No último dia 13, no final da tarde, quando não havia policiais na delegacia, um detento foi transferido para a cela onde estavam Luciana e a presa. O preso e a mulher começaram a ameaçar Luciana com um isqueiro, dizendo que colocariam fogo nela. Fiquei sabendo disso à noite, no hospital onde ela foi internada, afirmou a avó, Luzia Silva Viana, 67 anos, com quem Luciana morava.
Josoé de CarvalhoProvasLuzia com as roupas intactas da neta e o advogado Osni RebeloA neta relatou no hospital que os dois atearam fogo num colchão e a jogaram em cima, nua. Um dos presos a segurava junto às chamas com o pé em seu pescoço. As roupas dela permanecem intactas. Quando conseguiu se soltar, foi correndo para o banheiro atrás de água, contou a avó. Testemunhas - entre elas um detento que a família não quer identificar - disseram que não havia policiais na delegacia. Só sabemos que dois policiais militares mandaram um preso de confiança colocar o rapaz junto com elas na cela, denuncia.
Luzia tem informações que o cabo Romildo Cazulo Júnior e o soldado Anderson de Jesus Leite teriam ordenado a transferência. Há algum tempo, eles detiveram Luciana na rua e são acusados de espancá-la na delegacia. Eles tinham birra dela, afirmou a tia, Sandra Lúcia Viana, 31 anos. A tia e a avó visitavam Luciana diariamente na delegacia.
O advogado Osni Rebelo levará a denúncia para o Centro de Direitos Humanos. Há várias irregularidades. Luciana era deficiente mental e não poderia ficar presa numa cela comum, sem assistência; mulheres não podem ficar detidas na mesma cela que um homem; e o Estado é responsável pela integridade física e mental dos detentos. Cabe ação indenizatória, ressaltou.
Ontem o delegado Hélio Nunes Pires foi procurado pela Folha, mas não foi encontrado na cidade. Um policial informou que ele estaria de mudança para Maringá e que somente o delegado poderia comentar o assunto.
O corpo de Luciana será enterrado hoje no cemitério municipal.


