'Defensor público tem que ter autonomia'
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quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Andréa Lombardo<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Estima-se que 85% dos brasileiros dependam do atendimento das defensorias públicas e é consenso no meio jurídico que se trata de um órgão essencial para democratizar o acesso às instâncias judiciárias. A maioria dos estados já dispõe de defensorias implantadas, com autonomia funcional e administrativa, conforme prevê a Constituição Federal. Paraná, Santa Catarina e Goiás são exceções, segundo informou a Associação Nacional dos Defensores Públicos (Anadep).
De acordo com o presidente da Anadep, Fernando Calmon, ''a situação do Paraná só não é pior que a de Santa Catarina''. No Paraná, a Defensoria Pública é vinculada à Secretaria de Estado da Justiça e dispõe de 47 advogados. ''Santa Catarina transfere para a iniciativa privada tudo o que o estado não está fazendo'', afirmou. A diferença, segundo ele, é que no estado vizinho há um movimento bem consolidado para que a defensoria seja regulamentada. ''Há uma reação muito forte e que deve ter resultado em breve. Não vejo essa reação no Paraná'', acrescentou.
Dos três, o que está mais adiantado é o estado de Goiás, que já tem uma lei instituindo o órgão e está prestes a abrir concurso para cargos de defensor público. ''O defensor público não pode ser um profissional cedido por outro órgão do estado. Tem que ter autonomia, até porque ele vai entrar com ações contra o próprio estado'', afirmou Calmon.
A vinculação da defensoria a qualquer outra estrutura do Estado, lembrou Calmon, já foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ao julgar procedente, em 2007, Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) contra o governo de Pernambuco. Naquele estado, a Defensoria Pública também era vinculada à Secretaria de Justiça e Direitos Humanos.
Calmon defende que é papel do Ministério Público (MP) estadual cobrar do governo a regulamentação da defensoria. ''Esse tipo de iniciativa tem que vir do Estado'', disse ele, lembrando que a associação está disposta a parcerias com quem quiser levantar essa bandeira.
O presidente da Seção Paranaense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PR), Alberto de Paula Machado, assegurou que a entidade tem cobrado, sistematicamente, do governo do Estado a criação da Defensoria Pública com autonomia, mas não cogita, no momento, alguma medida mais drástica como uma ação judicial. Segundo ele, o que tem se buscado é o diálogo sem deixar de criticar a postura do governo. ''Nossa estratégia é de fazer críticas diretas ao governo, pois um governo que preza sua popularidade tem respeito ao cidadão'', declarou Machado.
Na última conversa, informou Machado, o governo teria se comprometido a estudar a possibilidade de realizar um trabalho emergencial pelo prazo de um ano. Passado esse período, o Estado apresentaria o projeto de lei criando a Defensoria Pública.
O trabalho emergencial para otimizar o atendimento à população se daria com parcerias como a que já foi firmada como o MP e com o projeto OAB Cidadania. Nos últimos quatro meses, advogados vêm fazendo atendimento gratuito a presos de Curitiba e Região Metropolitana. ''Em 2008, recebemos mais de 900 cartas de presos pedindo a designação de um advogado'', destacou o presidente da OAB-PR, o que, para ele, reforça a necessidade de estruturação da defensoria pública. ''Não há cidadania se não houver acesso à Justiça.''
Por meio da assessoria de imprensa, o procurador-geral de Justiça, Olympio de Sá Sotto Maior Neto, informou apenas que ''o Ministério Público tem participado com a OAB das discussões da matéria para implantação da defensoria''.


