A possibilidade de ganhar uma indenização pela morte de Anderson Amaurílio da Silva, 21 anos, atropelado durante protesto no Terminal Urbano de Londrina, não tirou a tristeza que reside no rosto da mãe desde o dia 13 de junho de 2003. Morando num bairro pobre com dois filhos e contando apenas com os R$ 25,00 que o marido tira por dia ''quando tem trabalho'', a dona-de-casa Cleuza Aparecida da Silva ainda não consegue segurar o pranto quando fala do filho - mesmo que o assunto seja o dinheiro que pode melhorar a vida da família.
Anderson foi atropelado por um ônibus da empresa Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL) durante manifestação estudantil contra o reajuste da tarifa de R$ 1,35 para R$ 1,60. Deficiente físico, ele estava junto com os manifestantes na saída do Terminal Urbano. Hospitalizado em estado grave, morreu 11 dias depois.
Em decisão publicada no último dia 11, o Tribunal de Justiça (TJ) manteve a indenização por danos morais e materiais requisitada por Cleuza, em ação movida na 3 Vara Cível de Londrina contra a TCGL. Ela já obtivera sentença favorável na justiça local em 2005, mas a concessionária apelou. Como compensação por danos materiais, o TJ determina que a TCGL pague pensão de um terço de salário mínimo até a data em que Anderson completaria 68 anos. A soma gira em torno de R$ 60 mil e deve ser quitada em parcela única. Já a indenização por danos morais foi fixada em R$ 20 mil, valor que ainda pode ser corrigido.
Embora o pagamento ainda não seja certo, uma vez que a empresa pode recorrer novamente na Justiça, Cleuza contou que esta semana foi abordada por desconhecidos em seu bairro, que queriam saber sobre o dinheiro. ''Tenho medo de que façam alguma coisa com meus filhos por causa disso'', desabafou. Ela afirmou que a indenização chegaria ''em boa hora'', servindo para pagar dívidas e ''uma casinha melhor'', mas que não consegue se sentir feliz com isso.
''Vou pegar porque é um direito meu. Não penso mais em vingança, como no começo. Mas a dor é a mesma e 'Grande Londrina' nenhuma paga'', declarou. Com 51 anos, Cleuza não consegue trabalho como doméstica para ajudar a sustentar os dois filhos, de 10 e 16 anos. O mais velho não completou o Ensino Fundamental. Apesar da falta de recursos, a família ainda ''faz um churrasquinho'' de vez quando. É nessas horas que a saudade aperta mais.
''O Anderson adorava uma festa, um barulho. Acho que foi isso que o atraiu naquela manifestação'', diz, tentando esconder as lágrimas. ''Desde que ele morreu, para mim não tem mais nem Natal nem Ano Novo. Ele fazia aniversário no dia 1º de janeiro'', conta.
A mãe lembra que estava no piso inferior do Terminal quando tudo aconteceu e até ouviu falar que um deficiente havia se ferido no protesto. ''Quando cheguei em casa, meu netinho disse que 'o Nilo já era'. Perdi os sentidos. Depois voltei lá e só encontrei a camisa do meu filho ensanguentada'', rememora.
Quatro anos depois, Cleuza se ressente de não ter visto as imagens do atropelamento, gravadas por cinegrafistas que acompanhavam a manifestação. ''Acho que queriam esconder de mim: diziam que a TV estava fora do ar, mudavam de canal. Um dia ainda quero ver como aconteceu'', diz a dona-de-casa.
A morte de Anderson também motivou a abertura de ação na 2 Vara Criminal de Londrina. Segundo informações obtidas no Fórum, o processo ainda está em fase de depoimentos das testemunhas de acusação e não tem data para ser concluído.
A reportagem da FOLHA já conversou com a direção da TCGL anteriormente sobre esse assunto e foi informada de que a empresa não quer se pronunciar sobre o caso e vai recorrer da decisão judicial.

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