Décadas de trabalho e de história
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segunda-feira, 23 de abril de 2012
Micaela Orikasa <br> Reportagem Local 
Entre grandes construções e novos estabelecimentos no comércio londrinense, encontrar lojas com velhos balcões e uma arquitetura preservada em madeira desperta uma certa curiosidade naqueles que transitam pelos bairros mais antigos. Além de instrumentos de trabalho conservados há décadas, o que chama a atenção são os trabalhadores que dão vida a esses locais.
Quem, por exemplo, já imaginou que na época em que os primeiros barbeiros da Vila Casoni (Região Central) abriram as portas para o público as ruas eram conhecidas por outros nomes? E que os únicos comércios eram bares comandados por japoneses e alguns poucos armazéns, conhecidos como ''Secos e Molhados''?
Quem viu de perto o progresso do bairro e conta um pouco dessa história é Nelson Gibellato, de 68 anos, que inaugurou o Salão Dois Irmãos na Rua Caraíbas, em 1960. ''Essa rua mesmo tinha o nome de Mauá. Era tudo de paralelepípedo. Vi este bairro crescer'', conta o barbeiro.
Ao entrar no salão, a sensação de voltar ao tempo é imediata. Os balcões com revestimento em tecido já perderam a coloração com o passar dos anos, os sofás são sustentados por estruturas antigas de madeira, a única cadeira para atendimento acompanha seo Nelson desde o primeiro cliente, E, para completar, alguns discos de vinil se espalham pelo balcão ao lado do aparelho de som.
Diante desse cenário, uma dúvida. Com um mercado competitivo e grandes investidores cada vez mais interessados no crescimento acelerado de Londrina, como esses ''antigos'' comerciantes resistem ao tempo? A resposta, seo Nelson tem logo à sua frente. ''É a clientela fiel e principalmente, amiga'', diz.
Sentado na antiga cadeira, o motorista aposentado Massanoru Yamashita revela que frequenta o local há cinco décadas e desabafa: ''Por sorte minha, ele não para de trabalhar'', diz o amigo e cliente, sob o olhar atento do barbeiro, que sem precisar ser questionado logo responde: ''Se eu parar, eu morro.''
Mas não é só seo Nelson que tem uma clientela fiel. Do outro lado da rua, em uma estreita porta, José Ribeiro da Silva, de 74 anos, que também é barbeiro, atende há 43 anos. No pequeno salão, ele cria canários que se dedicam a animar os frequentadores, e tem um grande xodó pela cadeira, seu grande instrumento de trabalho. ''Ela é original. Quando eu parar, carrego ela comigo'', brinca.
Com anos e anos de profissão, seo José mostra os calos nascidos nas mãos por segurar durante tanto tempo a máquina de cortar manual. Bom de papo, ele também conta que há quatro décadas os clientes vinham de sítios vizinhos e aproveitavam para cortar os cabelos e fazer a barba durante o passeio de fim de semana.
''Aqui sempre foi movimentado. Muita coisa mudou, mas continua sendo bem frequentada'', comenta ele, ao fazer referência à Vila Casoni, um dos bairros mais antigos de Londrina. Quanto aos clientes, o barbeiro diz que além do bom serviço eles continuam indo ao pequeno salão pela grande amizade. ''É a conquista de estar tantos anos no mesmo lugar'', justifica.


