Debate reúne hoje líderes de fazendeiros e de sem-terra
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de fevereiro de 1997
Apolo Theodoro 
Warren NabucoFrente a frenteJosmar Choptian e Manoel Garcia, que participam do debate: visões diferentes sobre reforma agrária Um debate, em vez de um duelo, é o que está marcado para a noite de hoje, a partir das 22 horas, na TV Mix (canal 7 da TV a cabo). De um lado, Manoel Neco Garcia Cid, presidente da Sociedade Rural do Paraná (SRP), representando os empresários rurais; do outro, Josmar Choptian, coordenador regional do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra).
Iniciativa do programa Mesa do Produtor e tendo como mediador o leiloeiro rural Anibal Ferreira, o debate, com uma hora de duração, promete esquentar ainda mais o clima entre as partes, relação que se tornou mais agressiva a partir do momento em que os sem-terra anunciaram a intenção de montar um acampamento para cerca de 5 mil famílias na região de Londrina. A notícia - dada em primeira mão pela Folha em 21 de janeiro - caiu como uma bomba em cima dos grandes grandes produtores rurais do município, que vêm perdendo o sono com a possibilidade das invasões.
Apontando o acampamento anunciado pelos sem-terra e a criação de uma milícia rural proposta pelo presidente da Rural como os grandes motivadores do debate desta noite, o mediador Anibal Ferreira clareia a idéia:
- Hoje fala-se muito em reforma agrária e, com o debate, pretendemos mostrar as posições de cada um, para que a opinião pública possa formar um conceito sobre o assunto.
Anibal explica que os telespectadores poderão participar do programa fazendo perguntas por telefone.
Uma reunião feita ontem à tarde na SRP estabeleceu que, além de Garcia e Choptian, também participarão Gilberto Santos e José Alves Padilha, pelo lado dos fazendeiros, e o assentado José Damasceno de Oliveira, representando os sem-terra. Outro convidado a participar do encontro desta noite é o novo comandante do 5º Batalhão da PM, Marino Ari Burille. Foi decidido ainda o tempo de um minuto e meio para perguntas, respostas e réplicas, sendo que na abertura e no encerramento do programa as duas partes falam por 3 minutos.
Da nossa parte vamos dizer como deve ser a reforma agrária e porque ela não acontece. Vamos expor nossa posição, dizer o que estamos vendo de avanço, onde há retrocesso e de quem é a culpa, antecipa Josmar Choptian.
Assentado da fazenda Ingá, próximo a Bela Vista do Paraíso, José Damasceno de Oliveira acredita que os fazendeiros vão querer colocar os sem-terra contra a parede, questionando principalmente o esquema de produção nos assentamentos. Mas diz estar preparado para retrucar na bucha qualquer provocação.
- Eles vivem dizendo que a nossa produção é atrasada, que não está dentro das técnicas, mas vamos mostrar a eles o quanto melhoraram as condições de vida lá na fazenda Ingá após o assentamento, diz Damasceno. Ele garante que a renda mínima mensal dos assentados está na casa de 3,5 salários mínimos.
O advogado e fazendeiro Gilberto Santos é um dos que mais se preocupou com o anúncio, pelo MST, de um grande acampamento em Londrina. Cinco mil famílias são cerca de 20 mil pessoas. Vai ser o caos para a Cidade, vão invadir propriedades produtivas e improdutivas e, como não há terra pra tanta gente, vão invadir áreas na zona urbana, além de competir com os trabalhadores londrinenses no mercado de trabalho.
Dizendo-se favorável à reforma agrária - Desde que seja sem ingerência político-ideológica e regida por critérios técnicos visando o aumento da produtividade - Gilberto Santos diz que ela só será possível se houver, nas áreas distribuídas, lavouras de café. O café é um produto em que a lavoura é eminentemente artesanal e altamente rentável.
Segundo o fazendeiro, lavouras de milho, soja ou outra cultura qualquer em áreas pequenas, de 7 alqueires, como propõem os ideólogos da reforma agrária no Brasil, não produzem para a subsistência de uma família de agricultores. Ele lembra que, aqui em Londrina mesmo, nas melhores terras do mundo, há ex-proprietários de 5, 10 alqueires que venderam as propriedades e hoje são zeladores de prédios.
No debate, vou defender a legalidade. Estamos vivendo um clima de intranquilidade e insegurança porque a lei não está sendo cumprida. Somos a favor da reforma agrária, desde que seja planejada, orientada e assistida por órgãos de pesquisa e orientação técnica, comenta Manoel Garcia, revelando que a SRP vai cadastrar os pequenos produtores rurais. Vamos ser um instrumento de reforma agrária no Paraná.
Garcia revelou também que hoje pela manhã estará em Curitiba participando de uma reunião do Conselho Estadual de Segurança. Vamos reivindicar o cumprimento constitucional das liminares de reintegração de posse expedidas pela Justiça e a nossa preocupação com o acampamento. E reiterou a disposição de firmar convênio com uma empresa de vigilância, que seria acionada assim que algum produtor se sentisse ameaçado de invasão. Mas tudo dentro da legalidade.


