Região colonizada por imigrantes, o Norte do Paraná já foi terra de muitas línguas, como o alemão, árabe, espanhol, japonês e ucraniano. Hoje, no entanto, os descendentes das etnias que viram no solo vermelho um lugar promissor no início do século 20 fazem pouco uso dos idiomas dos pais ou avós. No entanto, o falar dos antepassados está ganhando um novo significado – deixando o aspecto da língua de herança, para alcançar o status de diferencial no mercado de trabalho.
Em Rolândia, cidade colonizada por alemães, não faltam casos assim. "Muitas pessoas querem mudar de país, ir viver na Alemanha, e o alemão é importante para que consigam um bom trabalho", comenta Érica Oesterle, assistente do Consulado Honorário da Alemanha no município. Neste ano, de janeiro a outubro, o órgão recebeu 91 pedidos de cidadania alemã. A quantia já é quase o dobro da registrada no mesmo período de 2014, quando houve 56 pedidos. "Pelo menos 30% de quem busca o documento é porque quer se mudar. O primeiro motivo, analisamos, é pela situação atual do País. Mas também há aqueles que querem aproveitar a oportunidade que a cidadania lhes dá", pontua Érica.
Um fator que dificulta o aprendizado entre os adultos é o baixo número de professores de alemão em uma cidade colonizada por alemães. Segundo as contas do coordenador do Centro de Intercâmbio Cultural Brasil-Alemanha, Pedro Bernardi, Rolândia não deve ter mais do que quatro especialistas no idioma. "É um dilema porque não temos cursos oficiais em escolas. O inglês predomina", diz. Ele acredita que a miscigenação, com o passar dos anos, contribuiu para que o interesse pelo alemão diminuísse dentro de casa. "Eu mesmo aprendi com meus pais, mas meus filhos não falam muito", assinala.
Neto de alemães por parte de pai, o analista de operações logísticas Fernando Buchhorn, de 38 anos, de Londrina, faz aulas de alemão no Colégio Mãe de Deus há seis meses. Ele conta que já tem cidadania e que falar fluentemente o idioma é uma meta para realizar o sonho de um dia morar na Alemanha. Além disso, para Buchhorn, o aprendizado é uma forma de obter aproximação com as raízes de sua família. "Sou cidadão e não falo a língua. Esse também um motivo para aprender", salienta.
Entre os descendentes de imigrantes japoneses, não é diferente. Mas há um contraponto. Em Londrina, 80% dos alunos da Aliança Cultural Brasil-Japão são nikkeis. Destes, 60% são jovens, relata o professor Marcos Paulo Hayashi. "Ainda temos pais que fazem questão de manter o idioma na família. Também há alunos que estão buscando bolsas no Japão e precisam aprender o idioma", observa ele, ao recordar que a procura pela língua na escola já foi maior.
A estudante Karen Hakura Masuda, de 19 anos, ilustra bem esta situação. Ela conversava em japonês o básico com os pais até decidir mergulhar no universo da língua nipônica, há dois anos. Agora, está se preparando para concorrer a uma bolsa de estudos ofertada pelo governo japonês. A prova é no ano que vem. "Acredito que na parte da língua vou estar bem", vislumbra.
Em Apucarana, reduto ucraniano, a língua-mãe dos imigrantes ainda fica restrita aos mais velhos. "Da geração nova, poucos vão atrás. Falta interesse em aprender, a não ser quando há bolsas ou especializações na Ucrânia", lamenta Dorotéia Tchopko, membro da Associação Recreativa e Cultural Ucraniana Brasileira (Arcub), de Apucarana. Ela observa que, em geral, este público tenta recuperar um pouco da tradição de seus antepassados quando perde um dos familiares mais antigos da família.
É entre os adultos, como a costureira Nibelina Isthuk Brecarlo, de 55 anos, que o desejo de resgatar a cultura dos pais é mais forte. Há três anos, ela frequenta semanalmente aulas de ucraniano ministradas por uma religiosa na cidade. "Quando se é criança é mais fácil aprender a pronúncia, mas estou gostando mesmo assim. Eu falava um pouco de ucraniano em casa, mas, depois que os meus avós faleceram, fomos diminuindo. Com as aulas, posso entender melhor as traduções agora", define.

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