Um cicerone comanda essa expedição, antecipando o percurso da viagem que não será feita de carro nem de avião. Todos embarcam no tempo, que não exige passaparte ou bagagem, mas atenção e curiosidade para visitar a Londrina de antigamente. Uma cidade que reaparece em detalhes entre a mata de prédios em que se transformou, diante da admiração dos 200 alunos de duas escolas londrinenses, que ontem à tarde atravessaram as fronteiras da história durante uma visita ao Museu Histórico de Londrina, dentro do projeto ''Tem Criança no Museu''.
Nem de longe as crianças, passageiras dessa empreitada, imaginavam que o projeto está em sua quarta edição e que cerca de dois mil estudantes já embarcaram nessa viagem. Porém, vão descobrindo, graças à ajuda do cicerone, que a cidade não nasceu grande, como a pequena idade delas pode pensar, acostumada a ver os prédios querendo tocar o céu. Por aqui passaram pioneiros de 32 etnias, que moravam em casebres de palmito.
Quase puxando a fila de estudantes, uma menina olha para tudo com interesse. O nome dela é estrangeiro, Stefane Caroline, lembrando os ingleses que desembarcaram na terra roxa. O sobrenome, Alves Almeida, completa a mistura, típica de muitas famílias brasileiras.
Com 10 anos idade, a aluna da 3 série do fundamental da Escola Municipal Carlos Zewe Coimbra, moradora no Jardim Marabá (Zona Leste), participou da visita, juntamente com os estudantes do Instituto Estadual de Educação de Londrina (Ieel).
Logo nos primeiros minutos da viagem, prevista para durar 60 minutos, Stefane Caroline entendeu o objetivo da visita ao ver índias de verdade tecendo balaios. ''É igual a gente vê nos livros'', afirmou Stefane.
A garota e os outros estudantes não só tiveram a oportunidade de reconhecer, através da visita, o que leram nos livros de história, mas também de ampliarem os horizontes do conhecimento, como afirmou a coordenadora geral do projeto, Eneida Maria Soares Rossi.
''Nesse passeio pelo tempo, as crianças começam a se habituar em ir a museus, como uma forma de aprimoramento cultural. Elas unem a modernidade da vida escolar com a tradição do acervo museológico'', destacou Eneida Maria, acrescentando que o projeto é uma iniciativa da direção do Museu Histórico de Londrina e da Sociedade Amigos do Museu (SAM).
O cicerone aguça o interesse dos estudantes ao convidar as crianças para a primeira escala do passeio na sala de exposição ''O Povo Que Fez e Faz Londrina'':
''Nós vamos viajar na história da formação de Londrina, uma jovem senhora.'' Aberta mais essa porta da curiosidade, Stefane Caroline e os seus amigos desembarcam em várias nacionalidades, como a africana, japonesa, inglesa, espanhola, portuguesa, russa e italiana.
Além de peças e objetos característicos dos países, os nichos com manequins vivos vestidos com as roupas de cada povo praticamente falavam com os visitantes.
Stefane Caroline segue o grupo, precisando ficar na ponta dos pés para ver o
espaço reservado aos árabes.
Na Galeria Histórica Permanente, alunos da Escola Municipal de Teatro (EMT) criam o clima para as crianças entrarem ainda mais no passado. As encenações puseram os olhos da garotada na primeira alfaiataria, no primeiro joalheiro, enfim, a Londrina que foi deixando para trás os casebres de palmito.
A viagem estava quase no fim e Stefane Caroline ainda se lembrava das índias tecendo balaios.
Porém, não só a estudante, como outras crianças, entre elas Celso de Almeida Júnior, 10 anos, aluno da 4 série, morador do Conjunto Jerônimo Nogueira Figueiredo (Zona Norte), e que todos os dias atravessa a cidade para estudar na Escola Carlos Zewe Coimbra, aprenderam que o tempo no museu não pára nunca, indo e voltando no passado e presente.
''Gostei mais das coisas que vi da Itália porque sou de origem italiana e mineira'', explicou o garoto, um típico pé-vermelho que, como não poderia deixar de ser, tem no sangue um pingo de cada cultura, que ajudou a formar a cidade, prestes a completar 70 anos.

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