De vendedora a vítima de tráfico de pessoas
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quarta-feira, 29 de julho de 2015
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
A ilusão de trabalhar no exterior e receber salários altos em relação ao que é oferecido no Brasil seduz muita gente, mas algumas dessas ofertas podem se tornar uma cilada. A reportagem entrevistou uma vítima que procurou o Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas no Estado do Paraná (NETP/PR) para contar o que sofreu. Ela, que trabalhava como vendedora, acabou nas mãos de traficantes internacionais de pessoas. Segundo seu relato, em 2004 trabalhava como vendedora com um salário de R$ 500 - com o qual precisava pagar o aluguel de R$ 350 e arcar com as despesas de alimentação dela e da filha, na época com 3 anos de idade.
Com o orçamento curto, procurou alternativas para aumentar a renda e aceitou trabalhar como motorista de prostitutas que precisavam circular pela cidade à noite. Os ganhos subiram para cerca de R$ 1 mil por mês, mas ainda eram insuficientes para bancar as despesas.
Uma das prostitutas para quem trabalhava foi convidada a ir para a Espanha e condicionou sua ida para lá à companhia da motorista, como forma de segurança. O argumento utilizado pelos traficantes para seduzi-las era de que os ganhos seriam dez vezes superiores ao que recebiam no Brasil e que "não tinha nada a ver com prostituição". "O sujeito falava que era bom, que tinha tudo do melhor por lá e que aqui era um país pobre. Eles davam joias para ajudar a convencer", relata.
Ao chegar lá, a ex-chefe dela teve o passaporte retido. Ela conta que teria o mesmo destino, no entanto, o que algumas pessoas classificariam como azar, para ela foi a sorte grande. A companhia aérea acabou extraviando sua mala na viagem deixando-a somente com a roupa do corpo. Ao chegar a uma luxuosa casa em La Coruña, na Espanha, a ex-vendedora percebeu que o trabalho oferecido não era o que havia sido acordado, mas que teria de trabalhar como prostituta. Como estava apenas com a roupa que vestia, não fez programas por não estar "apresentável". "Vi meninas que viravam dia e noite trabalhando, porque o proprietário da casa exigia 2 mil euros de cada a mulher, o que equivale a 60% dos programas realizados até que a pessoa pagasse o valor da passagem. Os donos da casa torturavam as meninas, não davam comida, além de forçá-las a trabalhar o tempo todo. Para suportar o baque eram obrigadas a usar drogas. O dono da casa também abusava das meninas", relata.
Para resgatar a mala no aeroporto, ela precisava do passaporte. Lá conseguiu trocar a passagem, que era de ida e volta para facilitar o ingresso na Espanha. Isso possibilitou que ela remarcasse seu retorno e conseguisse fugir para o Brasil. "Acredito muito em Deus em minha vida. Nada acontece por acaso. Me considero uma pessoa de sorte", afirma.
Ao chegar ao Brasil, veio a sensação de alívio, mas o trauma ainda permeia sua vida. "Eu tive medo de falar. Há muitas pessoas por trás de tudo isso, até mesmo policiais envolvidos. Não sabia em quem confiar, mas tinha que denunciar porque isso está cada vez está maior e mais forte. Fiz terapia e isso me ajudou", conta. Depois da fuga, ela relata que sofreu até ameaças de morte. "Hoje esse traficante está preso", diz.
Questionada sobre qual conselho daria às pessoas que recebem ofertas semelhantes, ela alerta para "duvidar sempre". "É tudo mentira. Todas são escravizadas. Ouvi relato de pessoas que foram esfaqueadas e torturadas", adverte.



