Proprietário da banca de jornais e revistas próximo à agência dos Correios (área central de Londrina), Pedro Taramelli, 78 anos, cumpre o mesmo ritual praticamente todos os dias, há mais de 50 anos. Ele acorda e, às 6 horas, já está na rua para abrir o estabelecimento. ‘‘É um compromisso com o público’’, afirma Taramelli, considerado o mais antigo jornaleiro da cidade ainda na ativa.
Nascido em Araçatuba (SP), Taramelli chegou a Londrina com os pais, quando tinha 17 anos. Trabalhou na roça, como a maioria das pessoas que se mudavam para a região. Aos 22 anos, já estava casado com Rozalina e resolveu trabalhar na cidade, em uma indústria. ‘‘Alguns anos mais tarde, virei taxista’’, relata.
Trabalhando no ponto ao lado do Correio, Taramelli observava o movimento na banca que, naquela época, já se localizava na esquina da Avenida Rio de Janeiro e da Rua Piauí. Em 1946, resolveu comprar a banca para a mulher poder trabalhar fora. Naquele ano, lembra, havia somente duas bancas de revistas na cidade - a outra pertencia a um homem que se chamava Lauro, já falecido.
Como as vendas de revistas e jornais estavam indo bem, depois de algum tempo, Taramelli resolveu abandonar o táxi e se dedicar apenas à banca. ‘‘Cruzeiro’’, ‘‘Manchete’’ e ‘‘Ilusão’’ são algumas das revistas que faziam sucesso na época. ‘‘Em termos de jornais, tinham a ‘Folha de Londrina’ e a ‘Folha de S. Paulo’’’, diz.
Desde aquela época, já era costume expor revistas e jornais do lado de fora para atrair fregueses. ‘‘Mercadoria mostrada, é mercadoria vendida’’, acredita. Ele lembra que a frequência na banca, nos primeiros anos, era de cerca de 20 pessoas. ‘‘Hoje, são mais de 100 pessoas que passam pela banca todos os dias’’, observa.
Da banca, Taramelli acompanhou também o desenvolvimento de Londrina. ‘‘A cidade cresceu muito, não imaginava que ia se desenvolver tanto’’, relata. O que mais impressionava o comerciante, nas décadas passadas, era o surgimento de prédios nas proximidades.
Dos velhos tempos, Taramelli diz ter saudades dos primeiros anos da década, quando ainda existia inflação. ‘‘As pessoas que lerem podem me criticar, mas, naquela época, havia inflação, mas a gente tinha dinheiro. Hoje ninguém tem mais dinheiro’’, afirma.
Por passar o dia todo na banca, Taramelli diz que acabava lendo muito. ‘‘Sempre gostei de política. Acompanhei a história política do País através das revistas e jornais’’, revela. A paixão pelo assunto é tanta, segundo ele, que gostaria que o filho, Edson, fosse candidato a algum cargo. ‘‘Mas, infelizmente, ele não gosta de política’’, lamenta.
Apesar de gostar do assunto, o jornaleiro diz que não deixa a sua banca se tornar ponto de encontro ou de propaganda de candidatos. ‘‘Tenhos os meus candidatos, mas não deixo fazer propaganda. É uma questão de respeito com os fregueses porque cada um tem a sua preferência’’, justifica.
Depois de trabalhar durante décadas no mesmo local, hoje Taramelli fica mais em casa. Diz estar doente e cansado, ‘‘afinal estou com 78 anos’’. O trabalho fica por conta de três empregados que o acompanham há mais de 15 anos. ‘‘Hoje acho que mais atrapalho que ajudo. Eles sabem muito mais que eu’’, afirma, rindo.
Apesar de não permanecer no local muito tempo, o comerciante faz questão de ir todos os dias abrir a banca. ‘‘Tem dias que até tentei dormir um pouco mais, me atrasar, mas não adianta. Chega a hora, levanto e vou lᒒ, observa. Os poucos dias em que faltou, afirma, foi quando ficou doente ou viajou com a mulher.
Com a experiência de mais de cinco décadas no comércio, Taramelli dá algumas orientações e dicas. Um ponto fundamental, afirma, é o bom atendimento. ‘‘Não dá para adivinhar quem entra na banca só para ler ou para comprar. Eu mesmo já ‘dei pontapé’ em algumas pessoas achando que não fossem comprar nada e me enganei’’, reconhece.
Dedicação ao negócio também é fundamental, segundo Taramelli. ‘‘Faça sol, chuva, feriado, a banca abre das 6 horas da manhã até as 10 da noite. Isso é dedicação’’, afirma. ‘‘Um cidadão de Tamarana sabe que se vier aqui para Londrina esta banca vai estar aberta, funcionando’’, ressalta.
Taramelli ressalta o respeito com as publicações mais antigas, mesmo que as vendas não estejam boas. ‘‘Um dia estavam colocando uma revista nova na frente, que estava vendendo mais, e deixando uma mais antiga de lado. Falei para os funcionários que tinham de lembrar dos anos anteriores, quando a gente era beneficiada com a boa vendagem daquela revista. Não é porque ela está mal de venda que devemos deixar de prestigiá-la’’, ensina. ‘‘É como se eu fosse trocar a minha mulher, que me ajudou a vida toda, por uma moça mais nova e bonita’’, compara.
Apesar de falar que está cansado, Taramelli diz que não se arrepende de ter trocado a profissão de taxista pela de comerciante. ‘‘Nunca pensei em desistir’’, afirma. Na sua opinião, um dos motivos de satisfação de trabalhar em uma banca é estimular a leitura da população.

PERFIL
Nome: Pedro Taramelli
Idade: 78 anos
Onde nasceu: Araçatuba (SP)
Profissão:Jornaleiro
Hobby: Dançar

mockup