Quem nunca teve preguiça de ter que ir até o lixo da cozinha para jogar uma embalagem e a deixou sobre a mesa de centro da sala? Ou deixou para limpar as fezes ou a urina de seu animal de estimação só no dia seguinte? Quem nunca esqueceu um alimento lá no fundo da geladeira e, quando percebeu, já estava podre? E até onde vai o limite desses pequenos desleixos?
Foi deixando de tomar essas pequenas atitudes de higiene que uma dona-de-casa conseguiu juntar três caminhões de lixo em sua residência. Foi preciso um mandado judicial, em maio do ano passado, para permitir a entrada de uma equipe da Secretaria Municipal de Saúde para recolher o entulho. Na época, ela recebeu um prazo para retirar de sua propriedade os 15 gatos e mais de dez cachorros encontrados no quintal.
Ontem pela manhã, de posse de outro mandado judicial, novamente uma equipe de servidores municipais das secretarias de Saúde e do Meio Ambiente voltou à casa da Rua Guaranis, na Vila Casoni (Área Central de Londrina). Prevenidos, levaram dois caminhões e vários funcionários para recolher o lixo. Desta vez, eles encontraram 55 gatos, 10 cachorros e um coelho na propriedade.
O que chegou ao extremo de se tornar um caso de saúde pública provavelmente é, antes, um caso de saúde mental. Segundo informações de vizinhos, o marido da dona-de-casa foi para o Japão há quase 20 anos. Os filhos também seguiram o mesmo caminho. Morando sozinha em uma grande casa assobradada, ela pode ter encontrado nos animais de estimação uma forma de driblar a solidão.
''No domingo, ela compra uns 20 frangos assados para dar para os bichos. Outro dia ela comentou que se levassem os animais dela, ela morreria em poucos dias'' avisou, preocupada, uma das vizinhas. A dona-de-casa recebeu uma notificação com um prazo de dez dias para retirar os animais da casa.
''Ela pode entrar em contato com o SOS Animal, o Hospital Veterinário ou mandar esses cães e gatos para uma propriedade na zona rural'', explica Maria Silvia Cebulski, gerente de fiscalização da Sema.
A enfermeira psiquiátrica Fábia Almeida, do Centro de Atendimento Psicossocial (Caps), acompanhou a ação. ''Tudo indica que se trata de um caso de internação. Mesmo que ela não aceite, se a família autorizar, é possível interná-la para um tratamento'', apontou.
Dentro da casa, a fiscalização encontrou grande quantidade de caixas, principalmente de eletroeletrônicos. ''Ela compra tevê, DVD, e não tira da caixa. Eu falo que assim estraga, melhor não comprar. Mas ela fala que é para quando os filhos voltarem, e que, se estragar, ela compra outro'', relatou uma vizinha.

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