De rancho na beira da estrada a cidade cinquentenária
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quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Wilhan Santin 
Amanhã será feriado em Rancho Alegre, cidade de 4 mil habitantes, no Norte do Paraná, a 75 km de asfalto de Londrina Viagem que poderia ser mais curta se um trecho de terra, de 18 km, da PR-443, entre Jataizinho e o entrocamento com a PR-442 fosse asfaltado, diminuindo o percurso em 30 km Assunto para breve
O fato é que Rancho - forma como os moradores chamam o município -, completa em 19 de novembro cinco décadas de sua instalação Serão três dias de festa, que começa com desfile das colônias étnicas e segue com duplas sertanejas se apresentando no Estádio Municipal Até aí tudo normal O interessante é que, por a cidade ser ainda tão jovem, alguns de seus primeiros moradores estão por ali, cheios de história para contar, preservando a memória do lugar e da região
É gente como dona Maria Augusta de Menezes, muito lúcida e com as lembranças afiadas aos 84 anos Era 1950 quando ela e o marido, Roque Menezes, morto há três anos, deixaram o Estado de São Paulo, cruzando o Paranapanema de balsa, para ganhar a vida num lugar que começava a tomar forma de vila, onde a mata era derrubada para ceder espaço aos cafezais Ali, Roque puxaria mudanças e o que fosse preciso com sua carroça e seu cavalo Quando faltavam fretes, trabalhava dobrando espigas de milho nas roças plantadas entre as ruas de café
''Quando chegamos, havia poucas casas ao redor da pensão da dona Cecília, um rancho, que oferecia pouso àqueles que passavam pela estrada que seguia em direção a Jataí (Jataizinho) Acontece que na pensão sempre se reuniam violeiros, que tocavam boas músicas Logo, o pessoal passou a chamar esse lugar de Rancho Alegre O nome pegou e virou nome da cidade'', conta a pioneira
Com o dinheiro que logo juntou, o casal montou o primeiro açougue da cidade e comprou sítio Tocando a vida de forma sossegada e criando o único filho ''Neste 'Nortão' do Paraná só não ajeitava a vida quem não queria'', diz Maria Augusta, recordando que o sossego só foi quebrado quando uma turma de jagunços, no começo da década de 1960, apareceu pela região, grilando terras na beira do Tibagi e azucrinando no Rancho
O sobrinho da mulher, Francisco Borges, 73, chega, de bicicleta, para visitar a tia e tomar um café e ajuda a recordar ''Tinha um caminhão só para carregar os jagunços Eles aterrorizavam Mataram muita gente Certa vez, num jogo de futebol entre o nosso time (de Rancho Alegre) e o deles, mataram nosso goleiro só porque ele se recusou a entregar o jogo, fazendo boas defesas'', ressalta Francisco ''Vieram dois caminhões de policiais de Curitiba para enfrentá-los Foi assustador'', emenda Maria Augusta ''Pouco depois a grilagem acabou e eles sumiram'', completa o sobrinho
A paz reinou de vez em Rancho Na praça, senhores jogam baralho calmamente e crianças brincam no gramado em volta da igreja matriz A produção agrícola é o motor da economia local O prefeito Dalvo Lúcio Moreira reclama da queda do FPM, coisa que atrapalha todos os pequenos municípios, mas diz que não desanima
Já dona Maria Augusta está relutante quanto ao fato de assistir ao desfile de amanhã Tem receio de se emocionar demais ''Vi isso aqui ir crescendo e se tornar essa beleza que é hoje'', finaliza


