Há anos uma das batalhas femininas tem sido vencer barreiras no mercado de trabalho, principalmente onde predomina a presença masculina. A história traz inúmeros casos de superação de mulheres que desafiaram o modelo e valores impostos. Um destes casos é o de Aurora Alsouza Tarbone. Quem a vê pode não acreditar que esta senhora de 64 anos, por muitos anos, dirigiu caminhões e foi motorista de uma empresa de transporte coletivo urbano de Londrina. Grande e imponente, os veículos em nenhum momento a intimidaram, tanto que dona Aurora acumula muitos quilômetros em seu currículo.
Tudo começou quando ela era adolescente. Aos 13 anos deu início a uma trajetória de muito chão rodado. ''Meu pai me ensinou a dirigir um Chevrolet 48; naquela época não existia instrutor. Como morávamos no sítio, asfalto não existia, o negócio era dirigir na terra mesmo, no meio do mato. Atolei muito no barro para catar lenha, carregar areia. O trabalho era duro e difícil, mas sempre dei conta do recado'', garante.
Os anos passaram, vieram o casamento e os filhos, e a paixão pela direção continuou firme. ''Meu marido era motorista de um caminhão-tanque. Acompanhava-o em todas as viagens. Algumas vezes, eu mesma quem dirigia a carga'', conta. Tanto conhecimento não poderia ficar restrito ao convívio familiar. Foi então que, depois de um teste para uma empresa de transporte coletivo, Aurora começou profissionalmente sua carreira como motorista. ''O teste foi muito fácil; eu sabia dirigir mais que o avaliador'', diverte-se.
O ano era 1977 e naquela época só havia na empresa cobradoras de catraca. Dona Aurora foi a primeira e única motorista por dez anos. ''Todos queriam andar e conhecer a mulher que dirigia o ônibus. Se hoje não se vê mulher dirigindo, imagina 20 anos atrás... Tinha que ter coragem para lidar com todas aquelas pessoas. E eu era boa; podiam carregar um copo de água na mão que não iria cair uma gota'', brinca Aurora.
Anos mais tarde, já fora da empresa, a vida lhe pregaria uma peça. O modelo de ônibus que ela dirigia foi o mesmo que tirou a vida de um dos filhos, aos 20 anos. Fazendo bicos para sustentar a família - na época o marido já havia morrido -, usou a indenização da empresa de ônibus para comprar um caminhão usado.
Foram mais 14 anos de andanças, até que, em 2003, por um problema de saúde, teve de ser aposentada por invalidez e ainda teve a categoria da carteira rebaixada. ''Foi um baque. Além de não poder dirigir mais caminhão, não poderia mais trabalhar com cargas. O salário da aposentadoria é muito pouco.''
Para dar um 'jeitinho' na situação, dona Aurora comprou uma 'caminhonetezinha' e faz bicos realizando pequenos fretes e mudanças. ''Não dá para ficar parada, senão fico louquinha. Adoro essa vida'', brinca. Ela também presta serviço terceirizado à mesma empresa em que a filha trabalha como motorista de caminhão.
Conhecimento vem de berço
Coincidência ou não, a filha de dona Aurora seguiu seus passos, ou melhor, seus quilômetros rodados. À primeira vista, Erlete Aparecida Donda parece uma mulher comum, mas esconde a motorista experiente que é. Com 42 anos, dirige um caminhão modelo 710, de dois eixos, deixando muitos 'barbados' no chinelo.
''Sou habilitada para dirigir carretas e cargas perigosas. Aprendi tudo com minha mãe, antes mesmo de dirigir um carro. Hoje trabalho com isso e amo o que faço. Acredito que seja um dom de família'', comenta ela, que também já trabalhou como instrutora de autoescola por cinco anos e fazendo fretes de cargas secas Brasil afora.
Erlete é funcionária de uma empresa de encomendas urgentes, a Braspress, que desde o começo de sua atuação em todo o País, investe na contratação de mulheres para trabalharem como motoristas de caminhão. Com atuação em todo o País, a empresa emprega 480 motoristas e, destes, 171 são do sexo feminino. No total de colaboradores da empresa, 33% do quadro é composto por mulheres.
Segundo pesquisas da própria empresa a delicadeza, cuidado e o capricho característicos das mulheres têm mostrado ser um caminho certeiro para o aumento da produtividade, melhoria no relacionamento com os clientes e até redução de custos.

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