De cortador de cana a palestrante
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quinta-feira, 30 de maio de 2013
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
Existem pessoas que aproveitam as oportunidades que passam por suas vidas e as agarram de tal forma que, mesmo nascendo em ambiente adverso, conseguem ultrapassar as dificuldades e obstáculos.
O ex-cortador de cana Ricardo Souto, de 32 anos, hoje estudante de Direito em Londrina, é um exemplo. Quinze anos se passaram desde o período em que deixou os canaviais até receber um convite para participar do 1º Congresso da Associação Mundial da Justiça Constitucional, que será realizado na Cidade do México em agosto deste ano. Quem o vê assistindo as aulas do curso ou dando assistência jurídica para pessoas carentes mal pode imaginar a odisseia pela qual passou até chegar a esse convite.
Souto nasceu em Porecatu (Norte) e de lá migrou para o município de Florestópolis, onde começou a cortar cana com apenas 17 anos. "Na época eu trabalhava por produção e conseguia o equivalente a R$ 800 nos valores de hoje", relembra. Ele conta que ao final de uma jornada de trabalho ficava extenuado, com o corpo cheio de cãibras. "Minha mãe passava álcool pelo meu corpo para aliviar a dor. Tinha dias que eu chegava desidratado em casa de tanto que suava", conta, dizendo que ainda guarda as imagens das pessoas que caíam desmaiadas no meio da plantação exauridas pelo serviço desgastante. "Aquele tipo de serviço não é para ser feito por pessoas, mas por máquinas."
Mesmo cortando cana ele projetava que iria frequentar uma universidade, apesar de ainda não ter ideia de qual curso faria. "Eu cortava cana, mas sabia que não tinha nascido para fazer aquilo a minha vida inteira. Eu queria ser alguém que ajudasse as pessoas a sair daquela condição, pois era uma espécie de trabalho forçado que não deveria ser feito nem por animais", afirma.
Ainda em Florestópolis, começou a trabalhar carregando sacas de produtos agrícolas. "E fui aproveitando todos os cursos gratuitos que disponibilizavam", destaca, informando que deve ter feito cerca de 50 capacitações.
As qualificações e os certificados foram os mais diversos possíveis. Foram eles que possibilitaram que ele trabalhasse como operador de empilhadeira, pedreiro, garçom, e ainda a aprender o idioma espanhol, a se tornar técnico em gerenciamento de vendas e recursos humanos, empreendedorismo, entre outros. A educação, portanto, foi fundamental para que ele fosse evoluindo e galgando suas conquistas profissionais.
Souto chegou a atuar como palestrante e consultor na área de vendas, mas sentia que faltava algo. "Muitas vezes as pessoas preferiam ouvir as palestras de pessoas que possuíam curso superior e então resolvi prestar vestibular para Direito." A primeira experiência como aluno do curso não deu certo, pois seus ganhos financeiros não eram suficientes para arcar com todas as despesas.
A estabilidade profissional veio com um concurso público para o cargo de agente de segurança na Divisão de Serviço de Bem-Estar à Comunidade (Sebec) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que ele prestou em 2006 e foi chamado apenas em 2009. Graças a esse trabalho ele consegue pagar as mensalidades na Faculdade Catuaí.
No último ano do curso, ele enfrenta uma dura rotina: trabalha das 7 às 19 horas e estuda no período noturno, até as 22h40. E tem que encontrar tempo para estagiar no escritório de assistência jurídica da faculdade. "Os únicos horários que tenho para estudar são nos meus dias de folga ou aos finais de semana e aproveito bem. Eu não tenho folga", afirma.
Fora da faculdade, ele enfrenta outra dificuldade: há alguns anos um vendaval destelhou a sua casa, localizada no Jardim Nova Aliança (zona norte), e estragou alguns pertences. "Hoje vivo em uma edícula alugada, e tudo o que consegui salvar está amontoado, sujeito a algumas goteiras que existem lá. Espero que em breve eu consiga consertar tudo e morar lá definitivamente, mas ainda não tenho o dinheiro", lamenta.
Questionado sobre seus planos a partir da graduação, ele afirmou que pretende continuar estudando para se qualificar cada vez mais. "Espero fazer uma especialização e depois tentarei algum concurso público na área jurídica", conclui.
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