VESTIBULAR -

De catador a cientista social

Jovem que atua em cooperativa de coleta de materiais recicláveis passou no vestibular da UEL e espera contribuir com atividade

Laís Taine - Grupo Folha
Laís Taine - Grupo Folha

Para uns, início de nova etapa, para outros, mudança de vida. Independentemente de como cada novo ingressante à universidade interpreta a sua aprovação no vestibular, o momento é semelhante para todos: o de desenhar sonhos novos. A FOLHA ouviu histórias de aprovados no Vestibular 2020 da UEL (Universidade Estadual de Londrina), que contam como a superação se torna experiência a se levar na mochila para contribuir com um mundo melhor. Nesta edição, o caminho do catador de material reciclável a cientista social. 


 Nilson Matheus Alves: "Você pode morar na favela, não ter carro, mas o conhecimento ninguém vai poder tirar de você”
Nilson Matheus Alves: "Você pode morar na favela, não ter carro, mas o conhecimento ninguém vai poder tirar de você” | Lais Taine - Grupo Folha
 



“Eu quero mudar como a sociedade me vê e como eu vejo a sociedade”, entona sem pretensão no meio da fala. Nilson Matheus Alves, 27, é um dos cooperados da Cooper Região (Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis e Resíduos Sólidos da Região Metropolitana de Londrina) e por alguns anos deixou o sonho da universidade engavetado até ser estimulado pelos colegas de trabalho. “Muitos cooperados viam em mim um potencial, mas eu não confiava”, revela.  




A autoestima baixa vem também pela realidade e cultura em que vive, na periferia da cidade, onde é comum interpretar o ensino médio como última etapa dos estudos e que, pelas dificuldades da rotina, alguns nem chegam a concluir. “Tenho analfabetos na família, irmãos que não concluíram o ensino médio. Eu sou o primeiro da família a entrar para a graduação”, sorri. 


"Tive uma professora de sociologia que fazia a gente pensar e passei a ler mais, acabei acordando”




Acreditar, porém, não foi fácil. No ensino médio, Alves quase contribuiu para a estatística da família e parou os estudos por um ano, mas retornou assim que entendeu que a educação poderia mudar sua história. "Tive uma professora de sociologia que fazia a gente pensar e passei a ler mais, a me interessar, acabei acordando”, afirma. O próprio despertar foi a inspiração para a escolha do curso, decisão ainda mais forte com a experiência na cooperativa, que passou a atuar aos 19 anos. “Aqui precisa de sociólogo para estudar e auxiliar nesse trabalho que envolve levar renda para casa e ainda preservar o meio ambiente”, comenta com orgulho. 


No entanto, a rotina dificultou o processo. Durante o último ano, Alves não conseguiu se preparar como desejava para o vestibular, mas fez por um semestre o cursinho pré-vestibular comunitário Ubuntu, no jardim Olímpico (oeste). Apesar de desistir para se dedicar ao trabalho, manteve contato com professores e foi aproveitando o tempo que tinha, no horário de almoço e nas idas e vindas do ônibus entre os jardins Sabará (oeste) e Califórnia (leste), para rever os conteúdos.  


“Eu quero mudar como a sociedade me vê e como eu vejo a sociedade”



Com a aprovação, sente-se estimulado a dar continuidade, movimento que ele vê crescendo no pátio do barracão. “Nos últimos anos, vi mais gente fazendo o Encceja (Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos). Eu também não sou o primeiro a passar na UEL, ano passado tivemos um cooperado aprovado e eu pensei ‘vou tentar também’ e espero que minha aprovação seja um estímulo para outros”, aponta.  


Atual auxiliar administrativo da cooperativa, pretende levar novas perspectivas ao pátio da coleta e convidar os colegas à reflexão sobre o papel de cada um na sociedade. “Eu confesso que já tive vergonha de falar que sou catador, mas hoje eu tenho muito orgulho e quero fazer isso aqui maior”, afirma. E, quem sabe, dar aulas e ensinar outras pessoas para que elas também despertem para um mundo maior, como foi com ele. “Mais gente a entender que você pode morar na favela, não ter carro, mas o conhecimento em si ninguém vai poder tirar de você”, defende. 

“Eu confesso que já tive vergonha de falar que sou catador, mas hoje eu tenho muito orgulho"






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