De casa para o trabalho, sem sair do lugar
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005
Carolina Avansini<BR>Reportagem Local 
Com status de cidade grande, Londrina ainda guarda na paisagem detalhes pitorescos próprios de locais do interior: bairros residenciais, onde se pode observar portas e janelas meio ''fora de lugar''; quintais e jardins onde as plantas cederam espaço para mesinhas de bar. Diante da necessidade de garantir a sobrevivência, famílias transformam não só as casas onde moram mas também as redondezas, certificando a fama da cidade de ter um povo de índole informal e alegre. Afinal, não é em qualquer lugar que se compram roupas e brinquedos na sala da casa do vizinho...
De um lado, a sala improvisada no espaço que já foi garagem. Do outro, quartos, cozinha e banheiro. No meio da casa localizada no Conjunto Semíramis (Zona Norte), onde um dia esteve instalada a sala, funciona o bazar de Emília Catarina Santi, 48 anos. O sofá e a televisão deram espaço a prateleiras e balcão. Um portão colocado na antiga garagem garantiu lugar aos móveis do local onde, anteriormente, Emília recepcionava as visitas.
A mudança na arquitetura da residência foi causada pela crise econômica. Há dez anos, quando seu marido ficou desempregado, a comerciante passou a vender confeccções, cosméticos e brinquedos de porta em porta. O sucesso foi tão grande que os fregueses passaram a procurá-la em casa. Diante da clientela formada, Emília expandiu os negócios a partir da simples retirada da porta de entrada. ''Transformei a sala em bazar'', contou.
Histórias como essa são comuns pelas ruas de Londrina. Movidas por dificuldades financeiras, muitas famílias optam por derrubar paredes e fazer reformas em casa para instalar um estabelecimento comercial que garanta a sobrevivência em meio ao desemprego.
Acostumada à rotina de morar e trabalhar no mesmo local, Emília só vê vantagens na prática. ''Com o bazar em casa, eu podia cuidar do serviço doméstico e das minhas três filhas (que hoje têm 20, 23 e 25 anos)'', disse. De trás do balcão, ela conseguia ganhar dinheiro ao mesmo tempo em que fiscalizava lição de casa, horário da escola e a alimentação das meninas. ''Os esforço compensou, todas as minhas filhas estão estudando'', comemora.
Vitoriosa à frente de seu negócio, a comerciante tem ambições para o ano que acaba de começar. Vai construir uma casa nos fundos do terreno, para onde se mudará com toda a família. Na parte da frente, o bazar que já foi responsável pelo sustento de todos e ainda paga a maior parte das contas reinará absoluto.
No bairro Aeroporto (Zona Leste), o casal Cirlete Marcondes Pelegrinelli, 45, e Antônio Roberto Pelegrinelli, 47, viveram experiência parecida. Donos de uma representação comercial de alimentos perecíveis, eles ficaram sem fonte de renda quando a empresa matriz foi à falência, há menos de dois anos. Apesar de terem formação profissional Cirlete é economista e o marido, técnico em raio X , os dois não conseguiram retornar ao mercado de trabalho formal.
Diante das dificuldades, ela começou a fazer pães caseiros para vender em um cômodo nos fundos da casa. A clientela aumentou, Antônio fez cursos de produção agroindustrial e os dois passaram a produzir compotas, conservas e massas caseiras, entre outras delícias culinárias. Em pouco tempo, o tímido estabelecimento saiu do quintal e ocupou a frente da residência. ''Transformamos metade da sala em casa de massas. O movimento dobrou'', comemora Cirlete.
A mudança de ramo agradou o casal que, apesar de passar todo o tempo na própria casa, têm pouco tempo disponível para a vida pessoal. ''Abrimos de segunda à sexta até às 20 horas, no sábado, até às 18 horas, e até às 14 horas dos domingos'', relatou. Os fregueses atrasados, entretanto, esticam o expediente dos comerciantes. ''É comum o pessoal bater na porta quando já estamos fechados.''
Sem funcionários, Cirlete cuida dos serviços domésticos ''quando dá''. Os filhos gêmeos de 11 anos já colaboram na produção dos alimentos para comercialização. O relacionamento do casal, garante, não é afetado pelas 24 horas de convivência. ''Somos acostumados, já trabalhávamos juntos antes'', disse a comerciante, que pretende abrir um café colonial nos próximos dois anos. O local para o empreendimento? O próprio quintal da residência.
Em frente ao Hospital do Câncer de Londrina, no Jardim Petrópolis (Zona Sul), o jardim da casa de Elza Aparecida Roncarati, 65, se transformou em lanchonete. O negócio começou há 15 anos, quando ela instalou a carroceria de um furgão na frente da residência. No local, são vendidos salgados, refrigerantes, cafés e outros lanches rápidos. Na varanda, mesas de bar acomodam a freguesia.
Os clientes são os acompanhantes dos pacientes do hospital. Como muitos deles vêm de outras cidades, Elza oferece serviço de pensão aos que precisam. O forte do negócio, entretanto, é a venda de alimentos. ''Passo mais tempo aqui (na lanchonete) do que dentro de casa'', contou ela, que acorda às 4 horas para fazer salgados. Na união entre trabalho e moradia, a comerciante só vê vantagens. ''Não pago aluguel do ponto e não preciso de transporte'', afirmou.


