De carentes, crianças passam a abandonadas
De carentes, crianças passam a abandonadas
Mauro FrassonPara a psicóloga Lídia Weber, a sociedade vive hoje um momento delicado, confundindo disciplina com punição físicaO trabalho do Departamento de Psicologia da UFPR para traçar o perfil e a história familiar das crianças internadas em abrigos especiais de Curitiba demonstra que 61% delas foram tiradas de casa por causa da negligência dos pais. Este fator fica caracterizado quando a criança não está sendo bem assistida pela família, ou seja, passa fome, tem doenças frequentes e mora em locais em condições arriscadas de sobrevivência.
Mas o que se verifica quando estas crianças acabam parando nos abrigos é o completo distanciamento da família. Da condição de carentes, estas crianças passam a ser abandonadas pela ausência de uma relação de continuidade com a família e pela sua prolongada permanência nos internatos, relata a pesquisa assinada pelas psicólogas da UFPR Lídia Weber, Mariana Terra, Patrícia Moreira e Rosiliane Messias.
Em 68% dos casos, a família nunca visitou a criança. A maior parte das crianças internadas veio de famílias com apenas um responsável. Cerca de 45% eram mães solteiras contra 32% de casais. Apesar da maioria das crianças vir de famílias monoparentais os casos mais graves de maus-tratos e violência física estão em famílias nas quais o pai e a mãe moram juntos, enfatizam as pesquisadoras. Com os casais, as psicólogas descobriram que houve maior frequência de casos de lesões corporais ou indícios de agressão física ou sexual.
Estamos num momento em que é preciso educar essa população, que está perdida em relação ao que é disciplina e punição física, comenta a psicóloga Lígia Weber. O pediatra Gilberto Pascolat diz que para cada caso de violência contra crianças há pelo menos outros 20 que não chegam ao conhecimento das autoridades. (D.V.)





