De braços fortes e grandes construções
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quinta-feira, 15 de maio de 2014
Micaela Orikasa<br>Reportagem Local 
Londrina - É em uma edícula de poucos metros quadrados que a história da família de Hakushi Nishiyama está preservada. Mais que lembranças, os tempos de muito suor e dificuldades são simbolizados por velhas ferramentas, sendo a maioria artesanais.
Ao convidar a FOLHA para conhecer tais raridades, Nishiyama não se contém em mostrar uma a uma. Aos 83 anos, ele ainda as guarda em caixas de madeira, também construídas por suas próprias mãos.
Nascido em Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, ele relembra da história do pai, Yoshio, que deixou o Japão em 1927 e quatro anos depois estava em uma caminhão rumo a Londrina na companhia de um engenheiro japonês. "Como meu pai era carpinteiro, esse engenheiro o trouxe para ajudar a construir a cidade. A família ficou em Ourinhos (SP), até porque meu pai não sabia o que iria encontrar pela frente", conta.
Buscando na memória as histórias contadas pelo pai, Nishiyama comenta que Londrina tinha apenas um barracão, onde se guardava palmito Jussara, predominante na mata virgem. Lá, ele deixou as ferramentas e voltou para Ourinhos para buscar a esposa e os oito filhos. Ele havia topado o desafio de "erguer" a cidade.
"Só que quando ele chegou lá, eu, o segundo filho mais velho, estava muito doente. E meu pai não teve coragem de voltar para Londrina. Ele permaneceu com a família até eu sarar e isso se arrastou durante oito anos", diz.
Logo após a fundação de Uraí (Norte Pioneiro), a família mudou-se para lá, onde ele o pai começaram a construir as primeiras casas, até serem solicitados em cidades vizinhas. "A gente viajava muito para construir. Esse era nosso trabalho. Em Sertaneja, boa parte das casas em madeira foi erguida por nós. O Cine Ouro Branco em Assaí também, assim como o Quartel de Maringá, já em 1975", comenta.
Trabalho duro
Em 1978, Nishiyama veio para Londrina convidado para trabalhar na antiga Cooperativa Agrícola Cotia, onde atuou como mestre de obra. "Tudo que aprendi foi com meu pai. Como todo nihonjin(japonês) ele era muito bravo, sistemático e acho que isso acabou me ajudando a aprender rápido e com perfeição", ressalta.
Com ar de orgulho, Nishiyama explica que naquele tempo toda obra era exclusivamente braçal, "inclusive para fazer o concreto". Com o talento do pai também para a marcenaria, eles próprios criaram suas ferramentas que, guardadas até hoje, esperam por um único destino. "Gostaria de doá-las para algum museu, pois elas são responsáveis por parte da história da região", diz.
Outro desejo manifestado por Nishiyama é rever as casas construídas por eles. Com modéstia, ele afirma que seu trabalho "era tão bom quanto de um engenheiro de hoje. Nosso serviço era valorizado", completa.
Em Londrina, uma obra que ele cita com orgulho é a Igreja Budista da Vila Brasil, na região central. "Ao redor era tudo cafezal. Um amigo do meu pai nos chamou para construir e formamos uma equipe de sete pessoas. Toda a obra levou uns seis meses de trabalho duro, pois fazíamos tudo, do chão ao teto", salienta.
A construção foi erguida em madeira de peroba rosa e resiste ao tempo. Aliás, Nishiyama acredita que muitas de seus construções seguem em pé até hoje, assim como as ferramentas que resistem há mais de meio século.


