De braços abertos para o Vista Bela
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

Quando Leandro Palmerah mudou-se para o Residencial Vista Bela (zona norte de Londrina), em 2014, ele descobriu um mundo onde as necessidades são gritantes, mas são poucas as iniciativas para mudar uma realidade marcada pela falta de infraestrutura e pela violência. Rapper desde 1999, Palmerah aproximou-se ainda mais do universo da arte e da cultura e tornou-se educador social, desenvolvendo ações voltadas a crianças e jovens.
Em apenas dois anos, o trabalho de Palmerah ganhou visibilidade nacional e é por meio dele que novos caminhos vêm se abrindo. Caminhos que apontam em direção à valorização da periferia e da cultura negra. O grito emitido em forma de versos de rap e hip hop e expresso nos grafites que colorem os muros do bairro começa a ecoar mais alto. Nesta semana, o educador social teve seu perfil publicado no site do projeto Braços Abertos, idealizado pela Pirelli, em parceria com o Google Street View.
A Pirelli é responsável pela manutenção do Cristo Redentor monumento ícone da cidade do Rio de Janeiro - e o projeto surgiu para aproveitar o destaque da capital fluminense em razão dos Jogos Olímpicos. O site reúne as histórias de brasileiros de diversas regiões do País que têm em comum o empenho em fazer o bem e transformar realidades sociais.
Para atrair a atenção da multinacional italiana fabricante de pneus, Palmerah diz ter contado "um pouco com a sorte", mas sabe que o resultado é o reconhecimento de um trabalho "verdadeiro, feito com o coração". "A gente nunca imagina o que vai acontecer quando inicia um trabalho. A gente quer que o jovem olhe para ele mesmo e veja um outro caminho. Que seja protagonista de sua própria história, que ele pense em estudar, em fazer uma faculdade, em ser um artista. O objetivo é tirar o jovem da droga e que ele veja uma outra opção, como o grafite, a arte de rua, o balé. Para que seja um escravo a menos na sociedade."
O trabalho social de Palmerah começou a partir do contato dele com o Movimento dos Artistas de Rua de Londrina (MARL), que levou para o bairro a música e o teatro de rua. "Foi a primeira vez que vi uma peça de teatro", conta. A partir dessas ações, ele inscreveu no Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic) o projeto MH2 Para Além das Fronteiras do Hip Hop para levar oficinas de música e hip hop para o Vista Bela. O projeto foi selecionado e hoje atende 15 crianças. Mas com as outras ações, que incluem grafite, exposições fotográficas, oficinas de pipa e até um desfile de meninas negras, diz o educador social, cerca de 150 crianças e jovens têm contato com a cultura e a arte de rua.
VALORIZAÇÃO
Foi por meio dessas ações que Palmerah pôde ver que não estava sozinho. Ele descobriu um movimento forte e amplo de valorização das favelas, como a Central Única das Favelas (Cufa), do Rio de Janeiro, e a comunidade de Paraisópolis, em São Paulo. "Mostrei o meu projeto no Projac (estúdios da Rede Globo, no Rio), na cidade cenográfica da novela I Love Paraisópolis. Não sabia que tinha essa coisa de valorizar a periferia. Foi inovador. A gente vê muito isso em São Paulo e no Rio. Aqui não existe isso", disse.
Com seu trabalho social, Palmerah, aos poucos, começa a replicar a sua própria história na comunidade do Vista Bela. Ele cresceu no Conjunto José Giordano (zona norte) e enfrentou inúmeras dificuldades. A falta de comida em casa foi apenas uma delas. "Onde eu morava, a referência eram os traficantes, que esfregavam o carro novo na minha cara. Resolvi fazer o contrário do que eu sempre vivi, mostrar para os jovens uma opção. Nos finais de semana a gente vê que o tráfico passa de carro novo, passa com um tênis novo, um celular da moda. Quando a gente traz o hip hop, o grafite, a gente tira a atenção do jovem. Ele vai olhar para a arte mesmo que esteja de estômago vazio", acredita o educador social, que cursa o primeiro ano de Biblioteconomia na Universidade Estadual de Londrina.
Palmerah lamenta a maneira como o poder público trata a população da periferia. "As periferias de Londrina estão largadas. Existe a violência dentro dos bairros e a violência institucional, que é a pior que tem. A violência institucional é construir um bairro do tamanho do Vista Bela sem uma escola, sem nenhuma estrutura, sem nenhum equipamento público."
O educador social compara o Vista Bela a outros bairros de Londrina, onde os moradores tiveram de lutar contra o estereótipo. "A gente carrega os estereótipos negativos que o (Jardim) União da Vitória (zona sul) carregou em 1992, só que o nosso bairro é muito maior. O que falta para a gente mesmo é um pouco mais de atenção dos nossos governantes. A gente está tentando mudar uma realidade com as nossas próprias mãos."


