Há muito Londrina não apresenta um tipo popular, folclórico, meio louco, daqueles que, pela simples presença, atrai olhares curiosos – gente como os inesquecíveis Circuito, Caruso e Colega.
  Quem não se lembra dos gritos fervorosos do Caruso, que faziam tremer o Calçadão? E o Circuito, com seus pulinhos soluçantes, fazendo origamis com a maestria dos japoneses? Como esquecer a cara sorridente do Colega, com suas ‘‘mordidas’’ delicadas, modestas, sempre de acordo com a pinta ou cara do freguês?
  Pois é, com a morte ou desaparecimento desses três, Londrina ficou meio sem graça, pelo menos no Calçadão. Mas parece que tem gente querendo ocupar o lugar que eles deixaram vago. É o dono de uma extravagante bicicleta, estacionada entre o Posto de Saúde e o edifício Júlio Fuganti, que chama a atenção de quem passa pelo local.
  Ele começou bem. Já teve os seus 15 minutos de fama ao ser envolvido no Escândalo do Mensalão como ‘‘laranja’’ do deputado José Janene. Mas, para quem ainda não o conhece, a FOLHA apresenta com exclusividade: com vocês, João Bosco!
  - É mesmo?
  ‘‘Eu sou um artista, a maior parte do meu trabalho é na área artística, faço muita música e cenário...’’. E Ele confirma cantando: ‘‘Todos dias de manhã ela sai a caminhar/ vai passear no Zerão, na barragem, vai e volta/ se encontra com os amigos pra fazer suas fofocas/ dos beijinhos apaixonados/ alguém viu e tem quem prova. Viu o cenário? Zerão, barragem, beijinhos... É isso aí, é música e cenário junto, é música pra filme, pra novela... Ponhou a música pra tocar, pode ponhar a filmadora em cima que dá filme, é música e dramatologia junto’’.
  Neologista assumido, João Bosco dá nó na língua e não está nem aí com o dicionário:
  ‘‘Eu sou, como se diz, um dramatongo! Nunca ouviu falar? Dramatongo é quem escreve os filmes e as novelas, também é conhecido como dramatologista’’.
  Não há dramaturgo que corrija um homem desses, além do mais pra que corrigir se o brilho de tais personagens está justamente nesses detalhes pitorescos? E o cara é papo firme:
  ‘‘Tenho música que dá até pro Roberto Carlos cantar. Quer ouvir? Você fez da minha vida os seus brinquedos/ eu fui seus bons momentos de emoção/ de todas essas brigas engraçadas/ você foi quem flechou meu coração.../
  Mas que ninguém tente plagiar ou roubar qualquer uma das suas composições. Depois que lhe roubaram um caderno contendo 400 músicas, segundo ele, ‘‘só música boa’’, João Bosco agora está precavido:
  ‘‘Minhas músicas agora são registradas em cartório. Não te conto porque posso ir preso, mas tem muitas músicas dessas roubadas que virou trilha de novela. Agora, não, é tudo registrado com quebra-cabeça!’’
  ?
  ‘‘Ah, ah, ah, ah, eu lá sou bobo! Com quebra-cabeça o vocalista não consegue rimar; na hora que vai puxar a letra ele não consegue, a música é registrada com trava, só quem escreve que canta. Quero ver agora quem vai roubar música minha pra por em trilha de novela! Olha, cara, eu tenho música de tudo: de avião, de bicicleta, de motocicleta, de Londrina, do Rio de Janeiro, da Xuxa, da Angélica, de cerveja... A minha música de carro você conhece?’’
  Já ia acelerar a voz quando soltou um lamentado ‘‘Ai, cacete, esqueci a letra!’’. Mudou de assunto e passou a falar da ornamentada bicicleta. Cada objeto tem sua história. O avião é para sublimar o seu desejo de ser piloto. É de madeira e foi feito por ele mesmo, copiado de uma revista. O boneco do Batman não passa de um voyeur ‘‘olhando e querendo sentar em cima da roupa da moça que tá de biquíni, aqui em baixo, apalpando os seios com as mãos pra ver se não tem câncer de mama’’.
  Um veículo de brinquedo, transportando alguns personagens da Disneylândia, ‘‘é o táxi da criançada, um Constelation Lafayete, 1947, que foi pegar o pessoal no aeroporto’’. Os chifres ornando os cabos do guidão, virados para cima, ‘‘são o manche do avião e também pra lembrar dos cornos’’. Já o ventilador, é o ‘‘protótipo de uma eólica, um gerador de carregar bateria, movido a ar’’. E os CDs na roda da bicicleta ‘‘são enfeites que formam desenhos espelhados no chão quando bate o sol’’.
  Como não viu nem a cor do dinheiro do mensalão e muito menos das trilhas sonoras roubadas – João Bosco
hoje trabalha com lixo reciclado. Por isso, precisa ir embora. Se alguém está achando que ele tem um parafuso a menos na
cabeça, ele sacode um não com a própria, e se auto-define:
  ‘‘Louco, não, sou sistemático! Sou um artista e quase todo artista é sistemático. Se não for, toma no sabugo!’’

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