Londrina

Josoé de CarvalhoSede históricaCasa onde funciona o DCE no centro: local foi invadido em 78 por determinação do reitorO Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Estadual de Londrina completa 25 anos com uma história de lutas, conquistas e reveses. Uma história que começou a ser escrita no dia 26 de setembro de 1972, com a posse da primeira diretoria da entidade. Vivendo um período de restrição da liberdade, o movimento estudantil da UEL teve seu momento mais forte na década de 70, sendo a voz de oposição ao regime da época.
Palco de várias tentativas de compor estudantes e UEL, cenário de resistência, o DCE foi um elemento de vanguarda, numa época em que os estudantes tentavam se restabelecer do baque sofrido com o AI-5 em 1968, o decreto do governo da ditadura que mais restringiu a liberdade de expressão.
Com o passar dos anos o DCE - que reuniu na década de 70 um dos grupos políticos mais bem estruturados do País, o ‘‘Poeira’’, - acabou perdendo a representatividade. Enfrentou o inimigo da ditadura, passou por um período de desgaste e ainda hoje a ‘‘luta’’ dos dirigentes é no sentido de reestruturar o órgão e buscar a participação dos estudantes.
A mudança no estatuto da entidade, aprovada em agosto, no 3º Congresso do DCE realizado em Londrina, é a mais recente iniciativa para tentar reanimar o movimento estudantil: o presidente da entidade será substituído por 15 coordenadores. É um esforço, explica o atual presidente do DCE, Wanderley José Cardoso, para aumentar a representatividade do órgão e a participação estudantil.
Marcos Borges‘Havia divergências sim, mas as principais bandeiras eram lutas comuns’
Antes da década de 70, Londrina tinha ensino público e gratuito em suas faculdades e contava com a estrutura dos centros acadêmicos (CAs) livres e independentes. Em 71, com a criação da Universidade Estadual de Londrina, em regime de fundação, o ensino deixou de ser público e gratuito. Um ano mais tarde, foram criados o DCE e os diretórios setoriais que, apesar do vínculo jurídico, tinham autonomia.
Primeiro presidente eleito, o estudante de Medicina Márcio Almeida iniciou um trabalho mais voltado à estruturação física da então FUEL. Neste período começou a circular o jornal Terra Roxa, feito pelo pessoal do DCE com a preocupação de promover discussões de interesse estudantil e de conscientizar os estudantes sobre a organização e funcionamento do diretório.
A atuação política do DCE se intensificou a partir da eleição ocorrida um ano após a criação da entidade. Com a vitória da chapa considerada mais conservadora, por apoiar o reitor da época, Oscar Alves, surgiu o grupo de oposição ‘‘Poeira’’. No momento de intensa repressão, os jornais do movimento estudantil foram os veículos de denúncia, informação e livre criação, retratando a realidade dos estudantes e da sociedade.
‘‘O grupo teve uma abrangência, uma influência muito grande, e isso refletia nas eleições para prefeito, deputado’’, lembra o ex-presidente do DCE, Paulo Silva, no período de 74 a 75. O movimento estudantil, lembra ele, chegou a ser a ‘‘voz’’ da sociedade contra a ditadura. ‘‘Tínhamos essa preocupação de levar as lutas e reivindicações contra a estrutura da época.’’
Com a proposta de fazer uma política de base, o ‘‘Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima’’, ou simplesmente ‘‘Poeira’’, tinha programas de trabalho fundamentados em pesquisas com estudantes e trilhava o caminho democrático. O grupo venceu as eleições em 74 e conseguiu permanecer à frente do DCE até 78, quando a sede da entidade foi fechada e os bens sequestrados.
Arquivo Folha‘A exigência era coragem para enfrentar os riscos de prisão e desaparecimento’
Tadeu Felismino, ex-presidente do DCE (76/77)
Foi numa tarde de novembro. A sede onde os estudantes faziam suas reuniões foi invadida por policiais que, por determinação do ex-reitor José Pinotti, derrubaram parede e sequestraram à luz do dia mimeógrafos, impressora, telefone, Kombi, móveis e arquivos com livros de atas que registraram a história do movimento estudantil. Os dirigentes estudantis também foram cassados. O fato, registrado no início da abertura política, teve repercussão nacional.
A impressora off set comprada pelo DCE para imprimir o Poeira, confiscada na ocasião, foi devolvida ao DCE em agosto de 95, por força de uma liminar judicial. Mas o movimento estudantil, pela situação política, econômica, social e cultural do País, nunca mais foi o mesmo. A apatia dos estudantes chegou a ameaçar eleições do diretório, que permaneceu acéfalo durante alguns anos. O Poeira deu lugar ao Trombone - jornal do DCE, que pretende criar um canal de comunicação entre os estudantes e de ‘‘potencializar o movimento estudantil na UEL’’, sendo instrumento para discussão e um espaço aberto e crítico.
‘‘Fazer movimento estudantil hoje é um desafio muito maior que nos anos 70’’, considera Tadeu Felismino, que foi presidente do DCE de 76 a 77. ‘‘Naquela época tinha o combustível incendiário que era a própria repressão’’, diz Felismino. O jornalista exerceu mandato de vereador durante 10 anos, foi presidente da Câmara e professor da UEL.
Coordenador executivo de uma agência de desenvolvimento tecnológico e industrial de Londrina, Felismino acredita que a dificuldade maior, hoje, é identificar pontos comuns que possam mobilizar a classe estudantil. ‘‘Antigamente a exigência era coragem para enfrentar os riscos de prisão e desaparecimento. Hoje é preciso competência.’’

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