Daniele procurava uma cachorrinha, mas se encantou com duas gatinhas e resolveu levá-las para casa. Hellen estava atrás de uma fêmea para chamar de Valentina, mas não resistiu ao comportamento dócil do pequeno macho, que todo prosa no colo da estudante foi batizado de Valentino. A atendente Daniele Marques Machado e a estudante Hellen Kawlyne Fernandes fazem parte de um grupo consciente, mais preocupado em amar e ser amado por seu bicho de estimação do que em escolher entre uma ou outra raça da moda. Hoje elas vivem com novos companheiros em casa, escolhidos pelo simples critério da empatia em uma feira de animais realizada pelo Grupo de Apoio à Proteção Animal para Londrina e Região (GAP).
O comportamento de Daniele e Hellen é uma esperança de que um dia haja solução para o grave problema do abandono de animais. Segundo levantamento feito pela Secretaria Municipal do Ambiente (Sema), há cerca de três anos, existem de 30 mil a 35 mil cães abandonados e semidomiciliados (que passam o dia pelas ruas, sob risco de contaminação por doenças, atropelamentos e prenhez indesejada) na cidade. Só para se ter uma ideia, os voluntários da ONG SOS Vida Animal recebem uma média de 50 ligações por dia, de pessoas querendo se desfazer de animais ou informando sobre atropelamentos e maus-tratos. ''Mas como não temos estrutura suficiente, só conseguimos atender os casos mais urgentes, que são também os de recuperação mais difícil e cara'', informa a presidente da SOS, Marianna Nogueira.
O GAP, que surgiu mais recentemente, também não possui um local para abrigar os animais que precisam de um lar, mas divulga, via internet, campanhas para viabilizar tratamentos médicos, arrecadação de alimentos e feiras de adoção, além de apoiar protetores de toda a região. ''Nossa principal carência continua sendo encontrar voluntários que estejam dispostos a fornecer lar temporário ou que adotem animais independentemente de idade e raça'', revela Fernanda Torres, colaboradora do grupo.
Entre os bichos que deram a sorte de encontrar uma dona consciente estão as gatinhas Olívia e a irmã, ainda sem nome. Daniele, que as adotou, diz não concordar com a venda de animais. ''Seria a mesma coisa que vendermos um filho ou um de nossos irmãos'', compara a atendente, enquanto segura carinhosamente os filhotes. Sobre a escolha das gatas, ela confessa: ''Me apaixonei pelas duas''.
No caso de Hellen também foi paixão à primeira vista pelo cão de pelagem clara, resgatado junto da mãe e irmãos em um canil de Jaguapitã (46 km ao norte de Londrina). ''Ele foi o único da ninhada que veio comigo logo de cara.'' A estudante revela que no passado já teve animal comprado, mas que hoje não consegue ser indiferente aos bichos abandonados. ''É muito triste'', resume. Para Hellen, o fato de Valentino não ter raça definida não importa, e sim o encantamento que ela e o namorado, o também estudante Thiago Barossi, sentiram pelo novo companheiro.
Na casa de outra estudante, Alana Cantizani de Oliveira, o tipo de pelo, cor, tamanho e outras características também não importam. Pelo quintal e cômodos internos da casa transitam oito cães e quatro gatos. Com exceção de Júlia, uma dálmata de 10 anos que Alana ganhou, e de Lara, uma mestiça de pinscher nascida em sua casa, todos os outros foram recolhidos da rua, em situação de risco. ''Vejo muitos animais abandonados, mas não tenho condições de trazer todos para casa. Dou preferência para filhotes, mães com cria ou aqueles muito velhos, que precisam de mais cuidado'', diz a estudante de Zootecnia.
Alana é a chamada protetora, que recolhe o animal temporariamente como forma de salvá-lo, cuida, alimenta e tenta encontrar um novo lar para ele. Mas nem sempre isto é possível, e os bichos acabam ficando. ''O problema é que cada um que não consigo doar, é um a menos que vou poder salvar depois, por falta de espaço e de condições financeiras''.
Todas as despesas com a bicharada, incluindo ração, remédios e tratamentos, são bancados pela mãe da estudante, que é secretária executiva. ''A única ajuda que tenho é de alguns veterinários que conheço, que dão descontos para as cirurgias de castração e isenções de consultas'', explica Alana, que nunca parou para contabilizar o gasto mensal. Ela lembra, porém, que muitas vezes ela e a mãe têm de abrir mão de comprar coisas para si, como roupas, para bancar os imprevistos, entre eles os tratamentos médicos.
Alana é do tipo que perde o sono se vê um animal abandonado, e diz que nunca pensou em comprar um bicho na loja. ''Acho horrível vê-los lá, presos em gaiolas. Talvez aceitasse comprar apenas para poupá-los desse sofrimento.''
Serviço: Mais informações nos sites www.sosvidaanimal.org.br e www.gappr.com.br

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