Das espadas aos serrotes
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quinta-feira, 22 de julho de 2004
Adriana Savicki<br>Reportagem Local 
Trabalhadores habilidosos e pacientes, os carpinteiros japoneses deixaram uma marca toda especial na arquitetura londrinense. Mais que os detalhes delicados na decoração dos telhados e nos rendilhados de varandas, a técnica oriental ia além do visível e se calcava na priorização de encaixes como forma de unir a madeira. Parte dessa técnica quase perdida está sendo resgatada pelo Museu Histórico em parceria com o curso de arquitetura da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que está catalogando ferramentas da carpintaria japonesa.
Fruto de doações de famílias dos carpinteiros mais antigos, as ferramentas detalham a forma de construção usada pelos imigrantes. Um mestre carpinteiro japonês, segundo o professor Humberto Yamaki, utilizava, para peças simples cerca de 73 ferramentas e quase 180 para confecção de peças mais complexas.
De modo geral, as ferramentas são as mesmas dos carpinteiros brasileiros só que com muitas variações. Casos de serrotes e plainas que têm variados tipos de lâminas para dar a textura desejada na madeira.
Um detalhe, assim como os livros japoneses, que seguem a direção contrária da leitura ocidental, os serrotes cortam ao puxar. A carpintaria japonesa também tem uma infinidade de marcadores: os kebiki, apoiados em lâminas de metal e os sumitsubos, recipientes de madeira que continham algodão molhado em nanquin e linhas de algodão.
Segundo o professor, a quantidade de ferramentas, muito maior que as usadas na carpintaria ocidental, está ligada ao estilo de construção japonês calcada nos entalhes e na própria filosofia oriental. ''Depois que foi proibida a produção de espadas no Japão, aumentou a produção de ferramentas que passaram a ser consideradas obras de arte'', explica.
O resultado do trabalho dos carpinteiros, contudo, está sumindo da paisagem londrinense. Já não são muitas as casas de madeira fruto das mãos desses profissionais. Um trabalho paralelo do professor também tenta não deixar sumir de vez a técnica dos entalhes.
Ele fotografa as casas e, em demolições, tem conseguido obter partes das peças de encaixe e detalhes de decoração. O interesse maior, no entanto, são as diferentes encaixes, que também estão sendo catalogados. ''Na verdade, com o tempo os carpinteiros passaram a adotar mais as técnicas ocidentais já que não se dava muito valor à técnica que era bastante complexa no interior mas a forma exterior era simples'', afirma.
O professor lamenta a falta de uma política pública de preservação do patrimônio público. ''Quando você vê uma casa dessas você tem técnicas de mil anos por trás e quando ela cai, a técnica também se perde'', finaliza.


