Vamos tomar um cafezinho, confrade? O convite é extensivo a todos. Afinal, trata-se de homenagear aquele que esquentava as conversas nas manhãs frias de antigamente, além de ser o combustível que aqueceu a economia de Londrina e do Norte do Paraná durante décadas. Por sua causa, Londrina se vangloriava de ser a Capital Mundial do Café - título que ufanava os londrinenses, glória efêmera que murchou junto com as folhas dos cafezais na terrível geada negra de 1975.
Mas, feito a mitológica Fênix, o café ressurgiu das cinzas dos cafezais queimados e está de volta ao Paraná mais forte do que nunca, graças ao trabalho de pesquisa e campo desenvolvido pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) que, entre outras tecnologias de produção, desenvolveu a técnica de plantio popularmente conhecida como ''café adensado'', que fez a produtividade do café triplicar, passando de sete para 22 sacas por hectare.
E foi justamente no Iapar, como parte da programação do evento denominado Café e Negócios, que 25 londrinenses se encontraram, na manhã do último dia 19, para criar a Confraria do Café de Londrina - mais do que uma homenagem, o reconhecimento que já fazia por merecer este que foi o ganha-pão de milhares de paranaenses num tempo em que a monocultura cafeeira ocupava toda a terra roxa do Norte do Paraná, gerando riqueza e desenvolvimento.
Definindo confraria como ''uma reunião de amigos para cultuar alguma coisa e realizar um bem comum'', o advogado Dimas Oliveira fez palestra na reunião histórica da última quarta-feira. Membro fundador de outras confrarias como o Clube do Jazz e Confraria do Vinho, Dimas também é chegado num bom cafezinho e, com a sua experiência na área, vê com bons olhos o surgimento de tais associações.
''Veja o exemplo do vinho: de uns 15 anos para cá, as confrarias alavancaram os vinhos, tanto na qualidade quanto na redução do custo. O confrade aprende a tomar um bom vinho gastando menos'', argumenta o advogado. Para ele, se funcionou com o vinho, uma confraria do café em Londrina tem tudo para dar certo, pois, ''o café é mais natural do que o vinho, além de ser a bebida por excelência dos compadres''.
E, filtrando ainda mais as informações sobre a bebida, Dimas diz que do plantio ao bule, todas as fases são importante para se ter um bom café: ''De que adianta ele ser bem plantado, bem colhido, bem torrado, se a pessoa queima o café na hora de passar?'', indaga, já explicando que ''quando a água passa de 90 graus ela tende a queimar o café no coador'' que, aliás, ''deve ser de pano porque faz uma melhor filtragem.'' Continuando ele diz que, ''ao contrário do vinho, que deve ser bebido numa taça de cristal fina e fresca, o café, se possível, deve ser tomado numa xícara grossa e quente''.
Fazendo coro com Isa Granzotti, chefe do Cerimonial e Eventos do Iapar, Dimas Oliveira observa que já há muito tempo o café deixou para trás os limites estreitos da xícara - ''Hoje não só se bebe como se come café''. É isso mesmo, Isa? ''Sim, hoje tem biscoitinho de café, bomba de café, pudim, bolo, sorvete, pão, rocambole, musse e até carne assada com molho de café; hoje toma-se café com uísque, com creme, com licor; as formas dele ser servido e as possibilidades de fazer pratos diferentes com ele são infinitas'', detalha Isa, lembrando que numa confraria as pessoas ''aprendem a usar outros ingredientes junto com o café e ainda podem trocar receitas entre si''.
Filha de cafeicultores e entusiasta da idéia, Isa diz que a nova confraria pretende atuar junto às cafeterias de Londrina ''no sentido de promover cursos e discussões com o objetivo de melhorar a qualidade do café e educar o consumidor, porque se você tem um consumidor exigente ele te obriga a melhorar toda a cadeia produtiva e, consequentemente, a qualidade do café''.
Para a chefe do Cerimonial e Eventos do Iapar o aroma do café tem propriedades aglutinantes. Como ela diz: ''O café tem muitas funções e, entre elas, uma facilidade muito grande para juntar pessoas, fazer amigos, pois há sempre um tempo para o cafezinho. E uma confraria nada mais é do que amigos se reunindo para compartilhar algo que seja prazeroso a todos'', destaca e arremata poeticamente: ''No cafezinho você põe a saudade em dia.'' E, então, vamos pra confraria ou você vai continuar servindo e tomando café requentado?

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