Dar leitura a quem tem sede de saber
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sexta-feira, 02 de março de 2007
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Escapar da realidade é algo que todo ser humano já desejou em algum momento da vida. Fugir para lugares nunca antes visitados dentro de si, aprender a libertar a mente e o coração para enfrentar as diversidades diárias. Para a pedagoga Débora Pereira da Costa, ler pode ser o começo da libertação.
Em parceria com a Universidade Norte do Paraná (Unopar) ela organizou uma biblioteca para incentivar a leitura entre os meninos do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi), em Londrina. Único no Paraná, o acervo já conta com mais de 1,7 mil exemplares das literaturas brasileira e norte-americana, principalmente temas infanto-juvenis, além de assuntos como religião, direito, psicologia e medicina. Livros didáticos e revistas em geral completam a lista de opções para os adolescentes.
''O que eles mais pedem são livros que contam uma realidade parecida com a deles, como as histórias policiais, e também poesia'', informou Débora. Além das aulas regulares, os meninos praticam esportes, fabricam artesanato e são assistidos por uma terapeuta ocupacional. ''Os livros vêm complementar o lazer dos adolescentes'', assinalou a pedagoga.
Segundo ela, dos 82 adolescentes que vivem no Ciaadi, apenas duas são meninas. Enquanto elas preferem as revistas semanais, os meninos emprestam livros que contam histórias da periferia. ''Apenas a poesia é unânime entre todos.''
A intenção da diretoria do Centro é organizar uma sala de leitura, onde os adolescentes poderão ter acesso a revistas e gibis. Hoje, somente os livros podem ser levados ao dormitório. ''Como eles não podem circular pela biblioteca sozinhos, nós criamos um catálogo com os títulos dos livros e distribuimos para os educadores. Os meninos dão uma olhada nas opções, escolhem o livro e é o educador quem entrega o exemplar ao adolescente'', explicou Débora.
Normalmente, os internos ficam com os livros por até duas semanas. Cada ala tem, em média, 12 adolescentes e deste total, pelo menos sete lêem algo toda semana. As publicações infanto-juvenis são as mais procuradas, pois são mais fáceis de ler. ''Nem todos são alfabetizados'', ressaltou a pedagoga.
Para os garotos Gabriel, 18 anos, e Pedro, 17 (nomes fictícios), ler nunca foi problema. O mais velho, que cursa o primeiro ano do ensino médio, se encantou com a história de vida de Serginho, um ex-interno do Ciaadi, depois de ler sua biografia. ''O livro é massa, conta como ele saiu da rua e se tornou cantor de rap em Londrina'', comentou Gabriel.
Já Pedro, que está na quinta série do ensino fundamental, nunca tinha emprestado um livro sequer da biblioteca até escolher o título ''A filha do Silêncio'', de Morris West. ''É do mesmo autor de Advogado do Diabo, então deve ser bom'', constatou o menino.
Segundo Débora, publicações cujos títulos levam palavras como diabo, morte e guerra quase sempre interessam os adolescentes. ''Às vezes eu sei que o interno terá dificuldade em ler, mas empresto mesmo assim. Quando isso acontece, ele devolve o livro depois de dois dias e empresta outro, menor e mais fácil de ler.''
As duas meninas que estão internadas no Ciaadi, Daniele, 14, e Roberta, 16 (nomes fictícios), chegaram há pouco à instituição e ainda não sabiam da criação da biblioteca. A terapeuta ocupacional do Centro, Geniela Lopes, levou até elas alguns livros de poesia e também algumas revistas para tentar estimulá-las a ler.
Mesmo sem o hábito da leitura, elas escolheram livros do poeta Pedro Bandeira. ''Acho bonito'', declarou Daniele, que vai ler ''A droga da Obediência'', enquanto Roberta lerá ''A droga do Amor''.
Para Geniela, os adolescentes infratores são muito diferentes do que a população em geral costuma pensar. ''Convivendo com eles, descobri que muitos só precisam de um estímulo para seguir o caminho certo.''


