Danos ao ambiente vão persistir
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de julho de 2000
Michele Muller De Curitiba 
Os prejuízos causados ao meio ambiente com o vazamento no Rio Iguaçu não terão terminado quando os biólogos encontrarem o último peixe sujo de petróleo. Depois da luta contra as consequências imediatas do acidente, ambientalistas terão pela frente a tarefa de monitorar os danos considerados crônicos. Esses danos serão de proporções incalculáveis, afirma o biólogo Jackson Bassfeld, especialista em ecotoxicologia aquática.
Uma das preocupações das entidades ligadas ao meio ambiente é a capacidade de dissolução das substâncias que formaram a mancha. A contaminação não existe somente onde o rio está preto. O óleo se dilui, transformando-se numa película muito fina, que não aparece, explica o biólogo Ariel Scheffer, do Instituto Ecoplan.
De acordo com ele, partículas do produto químico ficarão retidas no fundo e nas margens do rio, liberando, aos poucos, hidrocarboneto para as águas e para o lençol freático. Peixes, microalgas e outros seres aquáticos serão contaminados, prejudicando toda a cadeia alimentar.
O tempo necessário para que o ambiente fique livre dos vestígios do vazamento ainda não pode ser previsto. Essa informação depende de avaliações toxicológicas, esclarece Bassfeld. Existem, segundo o biólogo, poucos estudos sobre a fauna da região. Não se sabe a quantidade aproximada de peixes, de algas e de crustáceos que há ali. Deveria ser feito um estudo cartográfico para análise das áreas mais sensíveis, com índices de diversidade biológica mais elevados.
Sem um estudo também não é possível prever com exatidão o perímetro atingido pelo acidente. Mesmo assim, são grandes as possibilidades de substâncias químicas serem carregadas com os peixes por muitos quilômetros. A tendência dos animais é fugir da área impactada, alerta Bassfeld. Partículas do óleo também podem ser levadas por aves contaminadas para uma distância que vai além da área pela qual o produto se deslocou. Uma ave pode sair do rio e pousar num tanque de piscicultura, por exemplo.
Biodiversidade Ao longo do Rio Iguaçu existem 69 espécies de peixes identificadas e 96 espécies de aves. Muitos desses animais estão ameaçados de extinção. A grande concentração da fauna, no entanto, não está na área por onde o óleo já passou, mas em alagados onde a susbtância pode chegar.
Biólogos afirmam que o trecho contaminado já foi abundante em animais marinhos. Os animais que sobrevivem ali são teimosos. A população e as empresas de Curitiba causam ao Iguaçu todos os meses danos equivalentes a esse acidente. O vazamento foi uma coroa de espinhos num rio que já está crucificado, desabafa o ambientalista José Álvaro Carneiro, da Liga Ambiental. Toda a energia e a água de Curitiba e região vêm desse rio, mas a sociedade não tem compromisso algum com ele, completa.


