''Ser bailarino é ter a missão de fazer do mundo um lugar melhor'', definiu Leonardo Ramos, coordenador da Escola Municipal de Dança, de Londrina. Prestes a completar 10 anos de existência, o local é hoje a ''segunda casa'' de aproximadamente 250 crianças e adolescentes que dedicam, em média, oito anos à dança clássica. ''É uma atividade sacrificante, nem sempre bem remunerada, mas é intrínseca à vida do profissional'', explicou Ramos.
A partir do próximo ano, cerca de 70 novos alunos ingressarão no curso de balé. Ontem, 75 candidatas, entre 7 e 12 anos, disputaram 50 vagas, metade delas com direito à bolsa (isenção da mensalidade de 20% do salário mínimo). O critério de seleção foi o biotipo e aptidão física. Isso não quer dizer que os menos favorecidos biologicamente deixarão de estudar. Ramos afirma que há sempre um jeito de encaixar todo mundo.
Para manter a qualidade no ensino, a Escola depende da união entre a prefeitura, Fundação Cultural e Artística de Londrina (Funcart), empresários e comunidade. Parte do dinheiro é destinada às bolsas que, somente em 2003, manterão 20 alunos vindos de projetos sócio-culturais desenvolvidos na periferia da cidade.
Um dos talentos revelados pelo Núcleo de Convivência Viva Vida, do Conjunto Novo Amparo (zona leste), é o garoto João Paulo de Souza, 10 anos. Ele é um dos dois meninos que cursarão balé a partir de fevereiro. Filho adotivo de Maria Nair e Gentil de Souza, ele afirma que desde os cinco anos de idade gosta de dançar. De acordo com a mãe, a idéia de inscrevê-lo na Escola foi da instrutora de dança do Núcleo do qual ele participa há quase três anos. Lá, João Paulo tem aulas diárias de teatro, artesanato, capoeira e hip-hop. ''Quero ser bailarino para ensinar a dança às crianças'', garante o menino que não faz a mínima idéia de como é a rotina de um aluno de balé.
Apesar do caráter democrático da Escola, boa parte dos aprendizes vêm de famílias humildes como a de João Paulo. Para Leonardo Ramos, isso não é bom nem ruim. ''Nosso objetivo é a integração entre as classes e a inclusão social através da arte. A diferença econômica entre eles nunca nos trouxe problemas diferentes dos que acontecem em qualquer outra escola. A criança quando é amada e valorizada respeita mais os outros e a si próprio'', conclui Ramos.
A comerciante e ex-professora de balé Ana Maria da Rocha Périgo foi uma das várias mães que passaram pela Escola Muncipal de Dança, ontem pela manhã, último dia do teste para a bolsa. Para ela, esse tipo de avaliação não deveria ser feito. ''A criança tem que ter o convívio com a dança para depois decidir se gosta ou não; muitas vão desistir no decorrer do curso. Disse à minha filha que ela viria fazer uma aula. Se não der aqui, vou colocá-la em outro lugar, porque posso pagar'', comentou.
Marcela Ferraz Prates, 10 anos, sonha em dançar balé desde pequena, já furou uma sapatilha que ganhou da avó de tanto usá-la em casa e ontem estava fazendo o teste pela terceira vez. ''Nem dormi direito'', contou. Ano passado, ela foi aprovada, mas teria que pagar a mensalidade. ''Como moro longe, perto do Autódromo, a gente ia ter que pegar condução. Ficaria muito caro'', justificou a mãe Lílian Ferraz Prates, desempregada há dois anos. (Colaborou Rosângela Vale)

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