Pensar na reação popular diante de um homicídio invariavelmente remete a sentimentos como revolta, dor ou mesmo desilusão quanto a um futuro incerto. No dia 27 de abril, porém, o que a reportagem da FOLHA viu em Paiquerê (Zona Sul) foi uma espécie de medo - com a situação que se avoluma - e resignação - em perceber que a violência, cada vez mais, não é mais 'privilégio' de quem mora na zona urbana. Naquele dia, entrava para as estatísticas da Polícia Civil o lavrador Joaquim Moreira Junior, de 27 anos, o ''Rural'', morto com um tiro em suposto acerto de contas. O acusado, Luiz Carlos Francisco de Souza, foi preso no mesmo dia.
No dia do homicídio o jovem estava em um bar com a companheira e os filhos. Uma das balas chegou a marcar a parede do bar - ele correu antes de ser atingido pela segunda, letal. Para quem esperava espanto dos moradores, uma surpresa: ''Já vi coisa muito pior'', disse um garoto de 13 anos, aparência de sete. Comerciante no distrito, um homem que não quis falar o próprio nome desabafou: ''Isso aqui tudo é porque não tem policiamento. Os caras vêm e ficam à vontade para fazer bagunça com moto, andar armado... Dá vontade de mudar daqui, sabe?''. Outro comerciante completou: ''Pode anotar aí: a segurança em Paiquerê está abandonada''.
Companheira do rapaz morto, a auxiliar de cozinha Maria Luíza Pereira, 20, foi enfática: ''Esse rapaz (Souza) veio de Bandeirantes até aqui só para atirar no meu marido. Se houvesse polícia em viatura, acho que pensaria duas vezes em fazer isso'', lamentou. ''Essas autoridades só vêm aqui em época de eleição para pedir voto, isso sim. Deixa elas com a gente.''
O presidente da Associação de Moradores de Paiquerê, Josias Pereira da Silva, contou que ''há mais de um ano o distrito está sem policiamento''. ''Aqui é assim: se alguma coisa acontece, como um homicídio, aí a polícia vem. Faz um ano que estamos pedindo quatro policiais para sete áreas rurais e nada - nos falam que é problema de equipamento, mas a associação até pneu para moto de policial já comprou e o distrito não viu resultados'', criticou. (Janaina Garcia)

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