Da prisão para as lojas
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segunda-feira, 27 de setembro de 2004
Adriana Savicki<br> Reportagem Local 
Das outras detentas elas ganharam o apelido de fuxiqueiras. Mas engana-se quem pensa que essas presas passam o dia de papo. Pelo contrário, para o grupo de 20 mulheres da carceragem do 3º Distrito Policial (DP) de Londrina (Zona Oeste) o dia ganhou uma nova rotina de trabalho na costura de pequenos retalhos coloridos. Pronto, o trabalho vira uma bolsa sofisticada que abastece lojas em Londrina e Maringá e até no exterior.
O trabalho é uma parceria de uma fábrica com a Secretaria de Segurança Pública. Por cada bolsa confeccionado, as detentas ganham R$ 1. Mais que o dinheiro, o que motiva as mulheres é a remissão da pena. De cada três dias trabalhados elas ganham um de liberdade.
Segundo o delegado do 3º DP, Valdir Fernandes, as detentas que já foram julgadas e estão cumprindo pena, 13 mulheres, tiveram prioridade. O restante das vagas foi sorteado entre as demais detentas. ''Para gente é bom, elas ficam ocupadas e o clima fica mais ameno na carcergam'', conta.
Com histórias semelhantes, a maioria cumprindo pena por tráfico de drogas e muitas delas por conta de seus companheiros, as mulheres torcem que a parceria dure bastante. ''Cada dia que eu trabalho fico mais perto de ver minhas filhas'', afirma Juliana Aparecida Vieira, 20 anos.
A filha mais nova de Juliana, com três anos, praticamente não conviveu com ela, já que cumpre pena há um ano por tráfico de entorpecentes. Juliana ainda tem dois anos e cinco meses de pena para cumprir.
Bibiane Santos, 26 anos, já chegou até a fazer as contas. Com a remissão, ela sairá em um ano e cinco meses. ''Agora é bem melhor, com a remissão tudo muda para gente'', afirma.
A chance de sair mais cedo e ainda ganhar algum dinheiro fez as mulheres menos afeitas aos trabalhos manuais aprenderem rápido o ofício da agulha. ''Como o interesse é grande a gente se vira'', diz Zanandréia Rosa, 28 anos. Ela que nunca tinha mexido com costura agora até planeja usar o que aprendeu no futuro. ''É um projeto a se pensar, aprendi aqui que o crime não compensa e a fazer artesanato'', conta.
Para confeccionar as peças, as mulheres seguem a rotina da carceragem, que troca a noite pelo dia. ''É muito quente aí dentro, então a gente prefere dormir de dia para trabalhar à noite quando é mais fresco'', explica Zanandréia. A carceragem, com capacidade para 24 presas, abriga 65 mulheres.
O dinheiro obtido com o trabalho também é benvindo. Cada bolsa leva, em média, um dia para ficar pronta. As detentas fazem apenas o fuxico, a costura, colocação de alças e acabamento fica por conta da fábrica. ''Dá para fazer mercado e comprar algumas coisinhas'', afirma Andréia Vieira da Costa.
Apesar da pouca prática da maioria, o trabalho é classificado como ''excelente'' pela fábrica. ''O trabalho delas é bom e elas são pessoas que precisam ter acesso a novas oportunidades'', comenta Mário Eduardo Aldo da Costa, proprietário da Fuxico. Além de lojas em Londrina e Maringá, as bolsas confeccionadas pelas detentas poderão, em breve, ser encontradas no Panamá. A fábrica já fechou contrato para exportação de unidades do produto.


