''DA ÉPOCA DO BARRO'' - Um 'lixo' muito valioso
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quarta-feira, 21 de novembro de 2007
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Recentemente, um encontro casual fez com que dezenas de londrinenses vasculhassem suas lembranças para reescrever um momento importante da história da cidade: a vinda do ex-presidente Juscelino Kubitschek a Londrina. O encontro foi casual pois as três fotos que ilustraram a visita foram encontradas em meio ao lixo reciclável. O fato, no mínimo inusitado, nos faz questionar: o londrinense dá valor à sua história?
Fotos, revistas, livros, discos, máquinas fotográficas e eletrodomésticos antigos são desacartados como recicláveis na cidade. Os próprios coletores admitem encontrar exemplares ''que só de olhar a gente vê que é velho'', como assegura Verônica Cardoso Costa, presidente da Associação de Recicladores Reciclando Vidas, da Vila Marízia (Região Central).
Ela mesma vive recolhendo ferros de passar roupa e telefones velhos abandonados pelo povo. Sem saber direito o que fazer com o que podemos chamar de ''lixo histórico'', Verônica armazena os objetos no barracão da associação, à espera de algum interessado. ''Às vezes um comprador vê e leva como enfeite de casa'', diz a recicladora, que sempre encontra fotos de família, ''da época do barro em Londrina'', brinca.
Conforme ela, os coletores londrinenses nunca receberam um treinamento específico de como separar o ''lixo histórico'' dos demais materias recicláveis. ''A gente vende tudo como papel'', afirma a presidente da associação, que recebe R$ 0,12 pelo quilo de fotos, recentes ou não. Para ela, a capacitação dos coletores é fundamental. ''A gente vive encontrando raridades pelo caminho, mas não sabe onde vender ou o que fazer com elas.''
Um programa piloto de coleta seletiva de lixo, desenvolvido em 1985 pela Universidade Federal Fluminense em parceria com a associação de moradores do Centro Comunitário de São Francisco, em Niterói, interior do Rio de Janeiro, culminou, dez anos depois, no projeto Resíduos e Memória, o qual, por meio do reaproveitamento de materiais recicláveis, recupera objetos antigos.
Além de reconhecer que um rico acervo de valor local e nacional se perde, diariamente, no lixo, o projeto incentiva novas fontes de renda para recicladores. No ano passado, a universidade obteve financiamento do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) para desenvolver uma metodologia que torne viável a disseminação da prática em outras cidades brasileiras.
A idéia ainda não chegou por aqui mas, na opinião de Célia Rodrigues, técnica em assuntos universitários e coordenadora do acervo de imagens do Museu Histórico de Londrina, precisa ser colocada em prática o quanto antes.
A maioria das fotos e objetos antigos da instituição são fruto de doações, mas o museu também tem uma política de aquisições. O material passa pela avaliação de uma comissão e se não for utilizado é devolvido ao dono. ''Depois da descoberta das fotos de JK em meio ao lixo, é importante se pensar num trabalho em parceria com os recicladores'', avalia Célia.
Hoje, o acervo de fotografias do Museu Histórico já funciona além da capacidade, que é de 70 mil imagens. ''Recebemos arquivos fotográficos da Prefeitura de 1960 a 1980. E só dos anos 1980 são 42 mil fotogramas'', calcula a técnica, ressaltando que a compra de fotografias ou objetos antigos só acontece se o material é realmente importante no contexto histórico da cidade.
''Já compramos fotos, mas nunca objetos. A maioria é doação mesmo'', reitera Célia, lembrando que os funcionários do museu também costumam correr atrás das dicas que recebem. ''A coleta de itens também é nossa missão.''
Para a diretora de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura de Londrina, Vanda Moraes, a capacitação de recicladores é o segundo passo para a preservação da história do município. ''O primeiro é conscientizar as pessoas a não descartarem documentos históricos no lixo.''
Segundo ela, o Município sempre orienta a população a levar fotos e objetos antigos para a própria Secretaria de Cultura, ao Museu Histórico ou para a universidade. ''Não temos o hábito de atribuir valores aos materiais. Por ser uma cidade nova, as pessoas ainda não enxergam as relíquias como antiguidades e costumam doar.''
Ainda conforme a diretora, as famílias dão mais valor aos seus acervos quando estão no museu. ''A capacitação dos recicladores serviria mais para que eles aprendessem a preservar a história da cidade do que para ganhar dinheiro. Acho que deveria ser um treinamento simples, mas de longa duração, para atingir mais gente.''
Serviço-
Para doar objetos e fotos antigas procure o Museu Histórico de Londrina nos telefones (43) 3323-0082/3324-1990 ou o Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura pelo número (43) 3371-6606.


