Da cervejinha ao alcoolismo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Mariana Guerin<br>Equipe da Folha 
Londrina - Centenas de alunos de oitava série do ensino fundamental de escolas públicas e particulares de Londrina participaram ontem do I Fórum de Debates Sobre Saúde do Adolescente, realizado no Cine Teatro Ouro Verde. Palestrantes dos setores de Saúde, Direito e Teologia discutiram durante toda a manhã o abuso do álcool nos tempos da Lei Seca.
Segundo o psiquiatra curitibano Fernando Sielski, o consumo de álcool está inserido na cultura brasileira. A cerveja, por exemplo, é a bebida que mais se destaca, correspondendo a 61% de todas as doses de álcool consumidas no País. "O álcool aproxima as pessoas, mas o ser humano precisa aprender a lidar com ele. Hoje, a média de idade para o primeiro gole entre os jovens brasileiros é 12 anos e meio", informou.
Para o psiquiatra, o motivo de apreensão de médicos e familiares é a difusão do hábito de beber exageradamente e não apenas nos fins de semana. Conforme ele, além dos danos neurológicos a longo prazo, o adolescente fica exposto a riscos imediatos, como envolvimento em acidentes de trânsito, casos de violência sexual, brigas e sexo sem proteção.
"Bebendo regularmente, a pessoa com predisposição genética desenvolve a típica tolerância ao álcool e o jovem que faz sucesso por sua capacidade de beber muito sem ficar embriagado é o mais forte candidato a se tornar alcoólatra", declarou Sielski.
Conforme ele, a recomendação médica é nunca beber mais que três doses de qualquer bebida alcoólica. "A Organização Mundial da Saúde considera bebedor social quem consome álcool seis vezes ao mês. Mais do que isso a pessoa já é considerada um dependente leve." Sielski alertou ainda para o mecanismo de defesa que o organismo cria nos dependentes. "Para o alcoólatra, quanto mais ele bebe, menos parece que está bebendo. É o princípio da negação."
Para o psiquiatra, como as demais doenças psiquiátricas, o alcoolismo é determinado por um conjunto de fatores genéticos e condições sociais: depende da personalidade da pessoa, dos motivos que a levaram a beber e da frequência com que ela bebe. "Não é igual para todo mundo. Pesquisas apontam que apenas 20% da população têm tendência a desenvolver dependência", completou Sielski. Ainda assim ele assinalou um dado preocupante: um quarto dos filhos de pais alcoólatras também se tornam viciados em álcool e outras drogas.
Conforme a promotora da Vara da Infância e Juventude de Londrina, Edina Maria de Paula, mais do que se preocupar em ser preso, o jovem deve pensar no mal que causa a si e ao outro. "Pela nova lei antidrogas, de dois anos atrás, o adolescente usuário de drogas lícitas ou ilícitas que comete um delito não é mais punido. Mas isso não quer dizer que ele não enfrentará consequências. A família responde pelo dano e o jovem ganha uma pena alternativa ou passa pela reabilitação", explicou.
Além da predisposição individual, Edina citou a atuação da família, dos amigos, da sociedade e da religião como fatores importantes no controle do consumo de álcool entre os adolescentes. "Certos valores é a família quem tem que passar para o jovem e se ele não assumir as responsabilidades no convívio social, vai ter que assumir na lei." Para Edina, se a família e a escola não estão preparadas para lidar com o problema, a cadeia pode se tornar o destino do jovem. "Hoje são 32 mil adolescentes apreendidos em sistemas socioeducativos no Brasil", contou.


