Cyberbullying, o crime dos adolescentes
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de julho de 2005
Clarissa Thomé<br> Agência Estado 
São Paulo A recente divulgação na Internet de cenas de adolescentes durante o ato sexual evidencia um novo tipo de agressão entre jovens: o cyberbullying. A perseguição e humilhação entre colegas, o 'bullying', ganhou a rede mundial de computadores e está se tornando cada vez mais comum entre rapazes e moças de classe média.
No Rio, já há um serviço de aconselhamento por telefone (21-3860-0665) em que vítimas podem buscar apoio de psicólogos e assistentes sociais. É o Telefone Amigo da Criança e do Adolescente (Teca), criado pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e Adolescência (Abrapia), em parceria com o Instituto Telemar.
''A situação é grave no País e no mundo. Em Londres as escolas proibiram que alunos portassem câmeras digitais ou celulares com câmeras para evitar a exposição de colegas na Internet'', disse o pediatra Lauro Monteiro Filho, secretário-executivo da Abrapia, entidade que luta pela redução do comportamento agressivo entre estudantes.
Há duas semanas, o Ministério Público Estadual abriu inquérito para investigar dois rapazes que divulgaram imagens em que um deles mantinha relações sexuais com uma jovem de 16 anos. A Justiça determinou a internação provisória dos dois por 45 dias no Instituto Padre Severino. Os rapazes deixaram o abrigo para menores em 24 horas, beneficiados por habeas-corpus.
Nem sempre os episódios de cyberbullying tornam-se casos de polícia. O psiquiatra Fábio Barbirato, presidente da Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil e chefe da Psiquiatria Infantil da Santa Casa de Misericórdia, atendeu recentemente dois adolescentes em seu consultório em Ipanema, na zona sul, vítimas do cyberbullying, cujos pais não denunciaram os episódios à Justiça.
Uma das vítimas foi um garoto de 13 anos. Em viagem com colegas de classe para um hotel-fazenda, ele foi fotografado nu num chuveiro comunitário, enquanto tomava banho. A imagem foi parar na Internet, com a seguinte legenda: ''X. numa sauna gay''. ''Ele ficou tão estigmatizado que os pais, um casal de empresários, mudaram-se para o interior do Estado'', contou o médico.
A outra paciente foi uma estudante de 15 anos, que posou para amigas sem roupa. As fotografias foram levadas para a escola e colocadas num site por outros colegas. A família contratou um advogado e as imagens foram retiradas do ar. A menina foi transferida de escola.
Barbirato defende limites e punição para os jovens que cometem atos graves contra colegas. ''O grau de repressão deve ser de acordo com o grau de juízo que eles tiveram ao cometer o delito'', afirmou.
O pediatra Lauro Monteiro Filho defende o diálogo com os pais. De acordo com Monteiro Filho, os telefonemas para o Teca são feitos por jovens que estão falando pela primeira vez sobre o assunto, na maioria dos casos.
Para a educadora sexual Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan - Centro de Estudos da Sexualidade Humana, as atitudes desses jovens que expõem amigos, namoradas não tem a ver com a sexualidade.
''Não é da natureza da sexualidade humana expor o outro. Esses episódios tem a ver com a impunidade, a falta de limites, falta de respeito à privacidade do outro. É uma brincadeira que beira a criminalidade e deve servir de exemplo para que outros não repitam o erro''.


