Londrina

Milton DóriaIvo Soares, 32 anos, 12 na estrada: "não temos nada de bom"A curva parece leve, contornável aos 80 km por hora. O motorista mantém a velocidade, apenas tira o pé do acelerador. De repente, o volante treme, o carro trepida e o domínio do homem sobre a máquina acaba em questão de segundos. A causa: ondulações na pista. O efeito: no mínimo uma escapada para fora da pista ou a invasão da faixa contrária, dependendo do lado da curva.
A BR-376, uma das rodovias federais pesquisadas no Paraná pela Confederação Nacional do Transporte, dá ao viajante a noção de como seria conduzir um carro com os olhos vendados. Nunca se sabe o que virá na saída da próxima curva. Um buraco, uma ondulação, uma pedra no meio da pista? Ou uma ribanceira, que comida pela erosão avança voraz para a pista, como pode ser constatado na boca de uma curva da 376, alguns quilômetros adiante de Mauá da Serra (54 km ao sul de Apucarana) para quem segue rumo a Curitiba.
Não basta, portanto, o motorista seguir à risca as recomendações tradicionais de cuidados ao volante. A 376 é uma estrada de curvas e quem viaja por ela está subindo ou descendo a Serra do Cadeado. Em dias de chuva, os cuidados devem ser maiores: poças d‘água encobrem as imperfeições do pavimento e a neblina é ameaçadora.
Caminhões vão e vem, muito acima dos 80 km/h permitidos. Em alguns trechos o acostamento inexiste, em outros o motorista não tem como enxergar o tamanho do degrau existente entre o asfalto e a terra batida tomada pelo matagal. Placas de sinalização ficam meio expostas, meio escondidas. A vegetação trata de confundir quem dirige pela rodovia.
O caminhoneiro Ivo Soares, 32 anos, há 12 na boléia de uma carreta, é usuário constante da 376. ‘‘Em matéria de estrada nós não temos nada’’, resume. Reginaldo José Taverno, 43 anos, trafega pelas estradas do Paraná e de Santa Catarina há 18 anos. A avaliação dele, que diz ter viajado a trabalho por todo o Brasil, é otimista.
Taverno diz que as rodovias dos dois estados vizinhos não deixam a desejar e oferecem infra-estrutura aceitável. ‘‘Comida, por exemplo, no Sul é o melhor. Em segurança nas estradas, de São Paulo para cá é tranquilo’’.
O empresário Humberto Bussadori faz o percurso entre Londrina e Curitiba a cada 15 ou 20 dias e tem queixas. Segundo ele, a falta de acostamento em alguns trechos da 376 é um tormento para o motorista e os buracos e as ondulações no pavimento são críticos. ‘‘Está pior no lado do sul. E quando chove é uma loucura’’.
Sócio-proprietário de uma distribuidora de carnes e de uma empresa de transporte rodoviário, Bussadori diz que a má conservação das estradas é uma das flagrantes causas do elevado custo do transporte. ‘‘Em carro de passeio, então, frequentemente o motorista é obrigado a colocar uma roda nova, trocar o pneu’’.
Carlos Alberto Faneco, também sócio-proprietário de uma transportadora com linhas em vários estados brasileiros, concorda: ‘‘É comum um caminhão atrasar por ter quebrado na estrada. Num percurso de 3 horas, por exemplo, às vezes o motorista gasta quase o dobro. Para onde é que vai o dinheiro arrecadado nos pedágios e com o IPVA?’’

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