Curtume de Rolândia perde maquinário
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terça-feira, 11 de novembro de 1997
Carina Paccola 
Rolândia
Dorico da SilvaFim da produçãoTrabalhadores protestam contra retirada das máquinas: ordem judicialO Curtume Berger, de Rolândia, parou a produção. Ontem, foi reiniciado o processo de retirada do maquinário da fábrica, com a remoção de uma divisora. A ordem da Justiça é que sejam retiradas 50 máquinas do curtume, que foram dadas como parte de garantia de uma dívida de R$ 108,6 milhões da empresa com o Banco do Brasil. Na segunda-feira da semana passada, foi retirada a primeira máquina divisora; na quarta, os funcionários impediram a remoção de mais máquinas.
Para enfrentar a resistência dos funcionários, o oficial de Justiça Antônio José Machado compareceu ontem ao curtume acompanhado de sete policiais militares. Eles chegaram às 13h30. A máquina divisora só foi retirada no final da tarde. Indignados com o fechamento da fábrica, os funcionários iniciaram um pequeno tumulto, logo controlado com ameaças de prisão. Algumas mulheres, com quase 20 anos de fábrica, choraram. Os trabalhadores, sem receber salários há dois meses, reclamaram que o equipamento foi retirado sem cuidado. Essa máquina não pode sofrer nenhum desnível que já estraga, disse o mecânico de manutenção, Reinaldo Luiz dos Reis, há 10 anos no curtume.
Foram necessários dois caminhões-guincho e um caminhão - que teve dois pneus furados - para retirar a máquina divisora do barracão da fábrica. A divisora é considerada pelos trabalhadores o coração da fábrica. Sem ela, não há produção. Com peso em torno de 12 toneladas, a máquina exigiu que um dos guinchos fosse trocado por um guindaste com capacidade maior.
Para receber os salários atrasados e os recursos da rescisão contratual, os trabalhadores vão precisar recorrer à Justiça do Trabalho. O advogado da empresa, Augusto Seiki Kozu, disse que a fábrica não tem como pagar ninguém agora. Tentamos todos os recursos na Justiça para impedir a retirada das máquinas. Agora não há o que fazer.
Segundo Kozu, o BB tem também 48 hectares de terra penhorados como garantia. Com o fechamento do curtume, deve ser paralisada a produção das fábricas de luvas e calçados do grupo Berger. No total, são 600 empregados. Os trabalhadores, reunidos na Associação dos Funcionários do Curtume Berger, queriam comprar o maquinário e continuar produzindo. Eles chegaram a oferecer proposta de compra ao Banco do Brasil: pagariam R$ 500 mil pelos equipamentos, parcelados em prestações mensais de R$ 22,3 mil. A Associação apresentou cartas de três curtumes se comprometendo a comprar a produção de 20 mil peças de couro/mês, por dois anos, e também um contrato de comodato do diretor do curtume, Roberto Berger, transferindo a posse e administração desses bens para os funcionários, por cinco anos. O BB recusou.
O superintendente regional do Banco do Brasil, Altino Ramos Costa, explica que a proposta é inviável porque não tem respaldo nos regulamentos do banco e do Tribunal de Contas. Como banco, temos que agir de acordo com as normas, diz. Segundo ele, a melhor saída seria a comunidade se mobilizar e formar uma sociedade anônima - com mil cotas de R$ 500 - para colocar o curtume em operação. São mais empregos do que muitas fábricas anunciadas para a região. Valeria o esforço da sociedade.
Os trabalhadores agendaram para hoje, às 10 horas, uma manifestação em frente à agência do Banco do Brasil em Rolândia. Sem as máquinas, acabou o serviço, lamentava Isaac Alves, que trabalha há pouco mais de dois anos na função de serviços gerais. Ele reclama que está com um problema sério na mão esquerda, adquirido no serviço. Com salário de R$ 173,00, está com o aluguel atrasado faz cinco meses. Sem emprego, vai ficar ainda mais difícil.
A capacidade de produção do Curtume Berger é de 30 mil peças por mês. Em concordata há seis anos e com sérias dificuldades financeiras, o curtume estava produzindo nos últimos meses 4 mil peças/mês. Já entraram na Justiça vários pedidos de falência da empresa. O promotor de Rolândia, Jacondino José Godinho, afirma ter dado parecer favorável para mais de 10 pedidos.
A empresa já chegou a ter 1.000 funcionários. Muitos demitidos reclamam que ainda não receberam o dinheiro da rescisão. O assistente de Departamento Pessoal, Paulo Cesar Sedano, disse que na sexta-feira os funcionários entraram na Justiça com medida cautelar de arresto para tentar segurar os equipamentos. Agora, eles estudam uma ação trabalhista coletiva.
Os diretores da empresa não estavam ontem no curtume e também não retornaram aos recados deixados pela Folha desde quinta-feira.


